Eu queria postar mais. Escrever mais. Ler mais. Surfar. Cozinhar. Fazer mais yoga. Reclamar menos. Curtir mais. Ser leve. Ser mais saudável. Atender gestantes. Criar.
Queria fazer muitas coisas e realmente fazia. Muitas pela metade, algumas por inteiro.
E aí eu encontrei o Decolalab. É um curso de empreendedorismo criativo que tem virado meu mundo de cabeça pra baixo e tirado muita poeira debaixo do meu tapete. Tem sido maravilhoso e ao mesmo tempo assustador.
Faz cerca de dois anos que praticamente me dediquei exclusivamente a maternidade e voluntariamente ao ativismo pela humanização do parto e maternidade ativa. E vinha sentindo cada vez mais necessidade de colocar em prática planos, ideias e sonhos. Não sabia como nem quando.
O tempo foi passando visivelmente rápido, cada vez que observava como Cauã crescia assustadoramente rápido.
A vida passando por mim ou eu passando por ela?
Eu queria passar por ela. #fazeracontecer
Então estou aqui, começando um desafio que joga pra lá toda a procrastinação.
Meu desafio será fazer 30 posts em 30 dias aqui no blog.
Persistência e consistência!
Pre pa ra que a viagem deve ser esquisitamente prazerosa!
Porque sair da zona de conforto exige certa força de vontade!
E dela eu tô cheinha!
Vamos lá!
Te vejo todo dia.
Conheça mais sobre o programa de empreendedorismo criativo da Rafaela Cappai
domingo, 19 de outubro de 2014
quarta-feira, 1 de outubro de 2014
Violência obstétrica não é drama, é realidade #VOBR2014
Reposto hoje o post: Violência obstétrica não é drama, é realidade, com algumas edições. O post falava do caso de violência obstétrica em Natal, ocorrido nesse ano. Reposto ele fazendo parte da Ação Coletiva contra a Violência Obstétrica de 2014 (#VOBR2014), em comemoração e promoção do documento publicado pela Organização Mundial de Saúde Prevenção e Eliminação de Abusos, desrespeitos e maus-tratos durante o parto em instituições de saúde
Sabe, uma das coisas que mais me feriu depois que publiquei meu relato nas redes, foi o fato de uma pessoa muito próxima a mim dizer que eu estava fazendo drama. Que meu filho tinha nascido bem e era isso que importava. Isso me doeu profundamente. Quando uma pessoa expõe seus sentimentos e a outra os menospreza é uma falta de humanidade, de compaixão, de amor e de respeito ao próximo. E sim, meu filho estava bem. Mas uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. Meu bebê estava bem, mas eu não estava. Ter com quem contar fez toda a diferença pra mim.
Sabe, uma das coisas que mais me feriu depois que publiquei meu relato nas redes, foi o fato de uma pessoa muito próxima a mim dizer que eu estava fazendo drama. Que meu filho tinha nascido bem e era isso que importava. Isso me doeu profundamente. Quando uma pessoa expõe seus sentimentos e a outra os menospreza é uma falta de humanidade, de compaixão, de amor e de respeito ao próximo. E sim, meu filho estava bem. Mas uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. Meu bebê estava bem, mas eu não estava. Ter com quem contar fez toda a diferença pra mim.
Algumas pessoas se mostraram desinformadas e duvidosas sobre o relato da Maria* e da versão do médico Iaperi Araújo. Outras acham puro drama. Muitos alguéns disseram por aí: Eu não acredito que Iaperi tenha feito isso, ele é referência na universidade (o professor tem dedicação exclusiva na UFRN, apesar de ter atendido a paciente em um hospital particular de Natal).
Pra vocês que pensam assim eu tenho algumas coisas pra falar. Você pode continuar na sua bolha de desinformação ou pode ler e procurar se posicionar de maneira mais consciente sobre o que aconteceu. As pessoas tem lados bons, mas tem lados bem ruins também. E geralmente eles se mostram quando a pessoa tem um poder legitimado. Seja quando ela está em casa e agride a família, seja quando está num hospital e agride uma mulher, como foi o caso.
Sobre a veracidade da história: fatos são fatos
O médico obstetra Iaperi Araújo publicou em seu perfil um desabafo antiético expondo o caso de uma paciente que era chamada pejorativamente de surtada e comedora de placenta. A história contada por ele parecia surreal demais pra ser verdade. Quando vi pensei: tenho certeza que essa mulher foi violentada. Espero que ela consiga justiça e que não fique calada.
Dias depois eu recebi a ligação de uma mulher muito abalada, dizia que queria conversar comigo porque achava que tinha sido vítima de violência obstétrica. Falou mais ou menos aos prantos o que acontecera e combinamos de ir até sua casa para conversarmos pessoalmente e para que eu pudesse dar as orientações possíveis. Não sabia que estaria diante do relato mais sofrido de violência obstétrica da minha vida até agora.
Faz cerca de dois anos somente que venho recebendo diversos relatos de violência obstétrica em nosso estado, em nome do Movimento pela Humanização do Parto e Nascimento. Esse foi sem sombra de dúvida o mais impactante.
Ela e a família começaram a me contar e entre pausas e questionamentos ficou nítido o quanto o caso tinha abalado a todos. Em diversos momentos do relato me segurei para não chorar e conseguir dar o apoio que julgava necessário. Dei as orientações cabíveis, expliquei a ela a necessidade de escrever um relato, tanto para expor sua versão, quanto para seu próprio processo de cura. Manteríamos contato dali em diante e ela poderia contar comigo.
Entrei no carro e chorei bastante. Fico sempre muito tocada com os relatos das mulheres, mas esse... era carregado de tanta violação, de tanto machismo, de tanta omissão de todos que ali estavam e que nada fizeram, de tanta falta de apoio de quem poderia ajudar... Estou desde então sem dormir direito, inquieta. Fico pensando se consigo lidar com tudo isso. As pessoas ao meu redor dizem que tenho que saber diferenciar o que é meu e o que não é, mas pra mim eu e ela estamos conectadas. Assim como todos nós estamos. E eu preciso encontrar uma maneira de mudar isso. Lembro claramente do momento em que decidir criar o Movimento, quando estava lá embaixo numa depressão e quando ainda escutava que a Promater tinha proibido a entrada de doulas depois de alguns partos naturais lindos. Busquei força no meu filho. E em outras mulheres. E lembro de uma frase que me motivou:
Quando eu me curo
Eu curo a outra
Eu ia lutar todos os dias para que nenhuma mulher precisasse passar pelo que passei. E foi isso que me motivou a me fortalecer novamente. Precisava encontrar meu eixo para seguir na luta.
Entrei em contato com as ativistas mais engajadas, com toda a blogosfera materna, com alguns blogs feministas. Contei o caso. Falei do relato, mas não o tinha em mãos. Torcia para que ela escrevesse, mas sabia do quanto escrever sobre o fato era um desafio emocional. Muitas mulheres me procuram, desabafam. Mas poucas conseguem seguir adiante para lidar com isso. Mas ela não. No dia combinado eu recebia o relato virtualmente. Rapidamente o repassei a quem poderia interessar. E então se formava a grande rede de apoio¹.
Então eu sou testemunha de que o que aconteceu aconteceu. Eu mais três ativistas que estão envolvidas com o amparo legal do caso. E uma jornalista. Sim, o caso aconteceu.
Sobre o anonimato
Mas por que ela não tem nome nem cara? Não aparece em nenhum lugar?
Obviamente se você faz essas perguntas, você precisa de mais solidariedade com o outro. Vou te colocar na seguinte situação: imagina que você sofreu um estupro. Você vai fazer o que? Colocar na rede social e sair contando pra todo o mundo? Mas por que você não faria isso? Não é uma situação agradável, não é? Não é uma situação que você queira reviver com essa frequência.
Agora imagina a situação da Maria*. Era o momento mais legal que ela poderia viver, o nascimento de seu filho. E esse momento foi roubado. Ela foi violentada, se sentiu abusada sexualmente. E mesmo assim cuida de seu filho 24h por dia como qualquer outra mãe no puerpério, lidando com todas as dificuldades naturalmente já impostas por essa fase. Mas além disso ela tem que lidar com pessoas insensíveis que emitem julgamento porque reconheceram ela pela publicação do médico Iaperi. A publicação teve sim repercussão negativa em sua vida.
Então não, ela não vai se expor mais ainda. Ela quer curtir o que lhe resta. E para ter voz ela não precisa ter cara. Todas nós mulheres damos voz a ela. E trabalharemos até que algum tipo de justiça seja feito. E vamos nos unir e nos fortalecer cada vez mais para mudar esse sistema.
Violência obstétrica não é drama, é realidade.
Mas depois de ler isso tudo pode ser que exista pessoas que acham que possa ter acontecido algo sim, mas que a história é muito dramática.
Xa eu falar uma coisa pra você: Violência obstétrica não é drama, é realidade.
Muitas mulheres nem sabem que sofreram violência obstétrica. Mas relatam sentirem uma memória ruim em relação ao parto. Nessa sociedade machista e nesse sistema patriarcal (sim, sou feminista e luto pela igualdade), com a interpretação pra lá de medieval do “parirás com dor”, a mulher que luta pela autonomia de seu corpo e de sua vida é taxada de surtada, com o objetivo de humilhá-la e deslegitimar seu poder de escolha.
Então, vou colocar algumas fontes confiáveis para você se informar e ver que violência obstétrica não é drama e que é uma realidade das maternidades públicas e privadas brasileiras. Ah, vale ressaltar que cesárea não salva ninguém de violência não tá? A violência obstétrica é institucional e de gênero. Ou seja, só por ser mulher é um fator de risco.
Vamos lá:
- Violência institucional emmaternidades públicas: hostilidade ao invés de acolhimento como uma questão degênero - Tese de doutorado da Janaína Marques de Aguiar
- Ley Orgánica Sobre El Derecho de las Mujeres a una VidaLibre de Violencia – Lei da Venezuela que caracteriza e pune atos de violência obstétrica
- Documentários: Violência Obstétrica: a voz das brasileiras, A dor além do parto
- PL 7633/14: Projeto de Lei entregue pela Artemis que abrange aspectos da humanização ao parto e nascimento e da violência obstétrica
- Dossiê Violência Obstétrica: Parirás com Dor elaborado pela ONG Parto do Princípio para a CPMI de Violência contra as mulheres
- Denúncia caso Torres/RS entregue pela Artemis referente a uma cesárea contra a vontade da paciente. www.somostodxsadelir.wordspress.com
- Mapa de abusos cometidos no parto
- E agora (adicionado 01/10/2014) o documento da Organização Mundial de Saúde para Prevenção e Eliminação de Abusos, desrespeitos e maus-tratos durante o parto em instituições de saúde
Não importa sua opinião pessoal sobre a mulher. Houve agressão, realização de procedimentos contrários às diretrizes do MS e da OMS, à portaria 371 e muita falta de respeito. Isso é uma violência.
Mas se você ainda não ficou sensibilizado com o caso, faça o seguinte: fique grávid@ ou acompanhe alguém grávida que queira ter um parto natural, seguindo as recomendações da OMS, e diga que tem direito de decisão sobre seu corpo, que você quer respeito a sua autonomia e você terá uma grande probabilidade em testemunhar atos de violência obstétrica. Porque você está indo contra um sistema muito produtivo para a indústria do nascimento. Porque você depois vai ter que ir contra o corporativismo médico. Porque as pessoas esqueceram do que é prestar o cuidado. E a violência preenche as práticas rotineiras intervencionistas desses profissionais da assistência ao parto e nascimento.
Mas eu queria encontrar ela para dar um apoio
Deixe sua mensagem de apoio aqui: http://nosnaodormimos.tumblr.com/
E o que vocês estão fazendo?
Estamos em rede de apoio. A Lígia, do Cientista que virouMãe e as mulheres da Artemis estão coladinhas com o caso para ter encaminhamento, como o ocorrido com o caso de Adelir. Uma denúncia já foi entregue e acompanharemos o encaminhamento.
¹O Movimento pela Humanização do Parto e Nascimento no Brasil tem uma força muito grande, porque trabalha em rede. Se você sofreu violência obstétrica em Natal e se sente preparada para denunciar, denuncie. Você não está só. É extremamente essencial que a violência obstétrica saia da invisibilidade. Precisamos mudar essa realidade, todos os dias. Se você testemunhar alguma violência também, não fique calado. Ajude a fazer uma sociedade de paz.
Juntas somos mais fortes
domingo, 7 de setembro de 2014
Maternagem Zen - Leo Babauta
Dando sequência à educação para a paz, à criação com apego, hoje trago a tradução de mais um texto do Leo Babauta: Pa/Maternagem Zen: como manter a paciência como pai/mãe.
Os textos dele são livres de direitos autorais.
Confira o original no site dele, o ZenHabits
Os textos dele são livres de direitos autorais.
Confira o original no site dele, o ZenHabits
Que pai e mãe nunca perdeu as estribeiras quando uma criança se comporta
de maneira diferente do que você espera? Um pai ou mãe que não tenha perdido
sua paciência é uma criatura mítica, provavelmente montada em um unicórnio em
algum arco íris agora mesmo.
Eu posso contar as vezes que perdi a paciência como pai nos dedos de uma
mão – claro que essa mão precisaria ter infinitos dedos e eu precisaria de um
tempo muito grande para contar eles.
Contudo, posso dizer uma coisa: eu sou um pai muito mais calmo nesses
dias. Eu ainda fico com raiva de tempos em tempos (Sou humano), mas não é mais
algo recorrente diariamente ou sequer semanalmente.
Qual o meu segredo? Muita prática de consciência.
Eu percebi isso: gritar e punir não funciona.
Deixe-me dizer mais uma vez: gritar e punir são métodos ineficazes na maternagem.
Se eles funcionassem, todos nós seríamos pais brilhantes e as crianças iriam se
comportar para sempre depois que gritássemos.
Mas eles não funcionam. Eu não preciso de estudos de educação para me
dizer isso: eu posso ver com meus próprios filhos. (Leo tem 6 filhos) Claro, eu posso gritar com eles, e talvez eles
se aquietem por medo se eles acham que eu levantarei uma mão. O que eu estarei
ensinando a eles não é como se comportar bem, mas a terem medo de mim. E pior,
estarei ensinando a eles que gritem quando estão bravos, a resolverem os
conflitos com violência, ao invés de apenas conversar sobre as coisas e chegar
a uma resolução pacífica.
Estarei ensinando que o que eu quero é mais importante do que o que eles
querem e que estarei disposto a fazer coisas horríveis para conseguir o que eu
quero a qualquer custo, até mesmo o custo de nosso relacionamento.
Essas não são coisas que eu quero ensinar às minhas crianças. Quero que
elas saibam que nosso relacionamento é mais importante do que conseguir que se
comportem de determinada maneira em determinada hora.
E sim, eu sei que crianças precisam de limites – Eu acredito em limites
também. Eu os coloco e minhas crianças sabem que não é legal ultrapassa-los.
E sim, eu sei que eles precisam ser ensinados a como se comportarem
adequadamente. Eu somente não acredito que gritando é a maneira de ensiná-los o
comportamento adequado. Perder minha paciência e me comportar de maneira
negativa não é a maneira de ensiná-los a agir quando eles perdem a paciência e
se comportam de maneira negativa.
Dar o exemplo que estabelecemos para eles – como agir quando as coisas não
saem da maneira que gostaríamos – é muito muito mais importante do que as
regras que estabelecemos para eles. Eles aprendem lições sobre comportamento a
partir de nosso exemplo ao longo do tempo.
Caminhe a caminhada. É por isso que eu me comprometi a ser consciente e
pacífico como pai, mesmo que eu quebre esse juramento de tempos em tempos.
Quando quebro esse compromisso, eu peço perdão e falo sobre como estava errado.
Porque esse é meu exemplo de como se comportar depois que você se comportou de
maneira negativa.
Então aqui vão algumas lições para ajudar você a manter a tranquilidade
quando as coisas não saem como você gostaria:
1.
Não é sobre você. Nós pais tendemos
a tomar os comportamentos negativos das crianças de maneira pessoal, como se
eles estivessem fazendo um ataque pessoal a nós ou ao que nós acreditamos, uma
ofensa pessoal. É por isso que ficamos bravos. A raiva não ajuda, mas vem emerge
porque acreditamos que eles fizeram algo para nós. Eles não estão realmente
tentando nada contra nós – elas são somente crianças, e elas não sabem como
lidar com elas mesmas quando não conseguem o que querem ou quando ficam bravas
por alguma razão. É sobre o que elas estão passando. Se nós removemos “nós” da
equação, podemos ver mais objetivamente o que elas estão passando e como
podemos ajudar.
2. Seja o guia deles, não seu ditador. As crianças
precisam aprender a como caminhar no mundo, porque nós pais não estaremos
sempre lá para dizer como agir. E o melhor jeito de ensiná-las não é ditar a
lei o tempo todo – se nós ditamos as ações delas eles nunca aprenderão a tomar
decisões por elas mesmas. Nós devemos deixar que elas tomem suas decisão, com
limites é claro, e guia-las quando necessitam de ajuda. Imagine ser Yoda (o
mentor) ao invés de Darth Vader (o ditador barra pesada). Nota de ajuda: usar
Star Wars para ensinar lições às crianças é ótimo.
3.
O que elas
precisam? Quando as coisas não saem do jeito que gostariam, quando elas estão
bravas, quando estão com medo... do que precisam? Você gritando ou ameaçando
não é útil – coloque você mesmo nessa situação (e se imagine menor) e se
pergunte se você gostaria de alguém gritando com você quando você está
chateado. Como você reagiria se alguém maior e muito mais poderoso que você
estivesse gritando e te ameaçando? Você não gostaria disso e iria apenas
ressentir. O que seria útil? Talvez carinho? Alguma conversa calma sobre o
problema, examinando soluções. Um pouco de compaixão e empatia. E algumas
palavras firmes ou algo que impeça que realmente possa machucar eles.
4. Tire um tempo de descanso. Quando você está
bravo, no momento, geralmente é melhor que você se afaste, respire e se acalme.
Converse com eles quando você estiver de cabeça fria e que possa pensar as
coisas mais claramente. Isso é bem difícil de fazer, porque nós pais tendemos a
apenas mergulhar e resolver a situação no momento. Mas é difícil tomar boas
decisões, falar calmamente, agir racionalmente quando estamos bravos. E isso é
verdade pras crianças também.
5. Se você ainda não perdeu sua paciência, suspenda a
situação por um momento. Quando você perceber que está se estressando com uma situação ou
começando a ficar bravo mas não completamente ainda... respire fundo. Pause. Suspenda o momento e olhe pra dentro de você e veja você estressado ou
frustrado. Dê a você mesmo um momento de compaixão para essa frustração, que é
perfeitamente normal e Ok. Acalme a dor, deseje a você mesmo felicidade e então
respire fundo novamente. Se você puder, tente perceber que o sofrimento do seu
filho é parecido com o seu e que precisa de compaixão também.
6.
Se comprometa a ser
consciente com eles. Eu prometi às minhas crianças que eu seria um pai mais consciente e
pedi que eles me observassem. Se eles me pegassem perdendo a paciência, eles
colocariam um dólar em uma jarra para comprar sorvete com eles. Ajudou – eles ainda
não chamaram minha atenção. Hahahaha – eles nunca mais comerão sorvete! Apenas
brincando – nós ainda tomamos sorvete.
7. Saiba que
você errou. Espere ter
dificuldades mas aprenda com elas. Perceba onde você errou. Seja consciente enquanto
a dificuldade está acontecendo e perceba isso como um bom passo em direção a
ser mais consciente e a ter mais compaixão como pai.
Reveja suas ações e ao invés de se sentir mal, veja onde você pode melhorar e
tenha um plano para a próxima vez que isso ocorrer. É importante planejar
enquanto você está calmo, não decida como lidar com as coisas quando você está
bravo. Vá ajustando o plano da próxima vez que as coisas saiam errado para que
o plano fique cada vez melhor ao longo do tempo e também seu modo de ser um pai
com mais compaixão.
O problema principal é que temos um ideal enquanto pais de como nossos
filhos deveriam se comportar. Nós pensamos que eles deveriam ser crianças
ideais, mas na realidade eles não são ideais, eles são reais. Eles tem falhas,
como nós. Eles precisam de ajuda, cometem erros, ficam bravos, frustrados. Como
nós também. Vamos descobrir como se comportar quando nós cometemos erros,
ficamos bravos, nos sentimos chateados e mostrar às crianças como fazer isso
através de nosso exemplo.

Aceite eles pelo que são, com falhas e tudo. Ame-os completamente, com
abraços ao invés de gritos. Eu descobri que abraços são professores mais
eficazes do que qualquer coisa na minha maleta de ferramentas de parentagem.
quarta-feira, 16 de julho de 2014
Violência obstétrica não é drama, é realidade.
Sabe, uma das coisas que mais me
feriu depois que publiquei meu relato nas redes, foi o fato de uma pessoa muito
próxima a mim dizer que eu estava fazendo drama. Que meu filho tinha nascido
bem e era isso que importava. Isso me doeu profundamente. Quando uma pessoa
expõe seus sentimentos e a outra os menospreza é uma falta de humanidade, de
compaixão, de amor e de respeito ao próximo. E sim, meu filho estava bem. Mas
uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. Meu bebê estava bem, mas eu não estava. Ter com quem contar fez
toda a diferença pra mim.
Algumas pessoas se mostraram
desinformadas e duvidosas sobre o relato da Maria* e da versão do médico Iaperi
Araújo. Outras acham puro drama. Muitos alguéns disseram por aí: Eu não
acredito que Iaperi tenha feito isso, ele é referência na universidade (o
professor tem dedicação exclusiva na UFRN, apesar de ter atendido a paciente em
um hospital particular de Natal).
Pra vocês que pensam assim eu tenho
algumas coisas pra falar. Você pode continuar na sua bolha de desinformação ou
pode ler e procurar se posicionar de maneira mais consciente sobre o que
aconteceu. As pessoas tem lados bons, mas tem lados bem ruins também. E
geralmente eles se mostram quando a pessoa tem um poder legitimado. Seja quando
ela está em casa e agride a família, seja quando está num hospital e agride uma
mulher, como foi o caso.
Sobre a veracidade da
história: fatos são fatos
O médico obstetra Iaperi Araújo
publicou em seu perfil um desabafo antiético expondo o caso de uma paciente que
era chamada pejorativamente de surtada e comedora de placenta. A história
contada por ele parecia surreal demais pra ser verdade. Quando vi pensei: tenho
certeza que essa mulher foi violentada. Espero que ela consiga justiça e que
não fique calada.
Dias depois eu recebi a ligação
de uma mulher muito abalada, dizia que queria conversar comigo porque achava
que tinha sido vítima de violência obstétrica. Falou mais ou menos aos prantos o
que acontecera e combinamos de ir até sua casa para conversarmos pessoalmente e
para que eu pudesse dar as orientações possíveis. Não sabia que estaria diante
do relato mais sofrido de violência obstétrica da minha vida até agora.
Faz cerca de dois anos somente que
venho recebendo diversos relatos de violência obstétrica em nosso estado, em
nome do Movimento pela Humanização do Parto e Nascimento. Esse foi sem sombra
de dúvida o mais impactante.
Ela e a família começaram a me
contar e entre pausas e questionamentos ficou nítido o quanto o caso tinha
abalado a todos. Em diversos momentos do relato me segurei para não chorar e
conseguir dar o apoio que julgava necessário. Dei as orientações cabíveis,
expliquei a ela a necessidade de escrever um relato, tanto para expor sua
versão, quanto para seu próprio processo de cura. Manteríamos contato dali em
diante e ela poderia contar comigo.
Entrei no carro e chorei
bastante. Fico sempre muito tocada com os relatos das mulheres, mas esse... era
carregado de tanta violação, de tanto machismo, de tanta omissão de todos que
ali estavam e que nada fizeram, de tanta falta de apoio de quem poderia ajudar... Estou desde então sem dormir direito, inquieta. Fico pensando se consigo lidar com tudo isso. As pessoas ao meu redor dizem que
tenho que saber diferenciar o que é meu e o que não é, mas pra mim eu e ela
estamos conectadas. Assim como todos nós estamos. E eu preciso encontrar
uma maneira de mudar isso. Lembro claramente do momento em que decidir criar o
Movimento, quando estava lá embaixo numa depressão e quando ainda escutava que
a Promater tinha proibido a entrada de doulas depois de alguns partos naturais
lindos. Busquei força no meu filho. E em outras mulheres. E lembro de uma frase que me motivou:
Quando eu me curo
Eu curo a outra
Eu ia lutar todos os dias para
que nenhuma mulher precisasse passar pelo que passei. E foi isso que me motivou
a me fortalecer novamente. Precisava encontrar meu eixo para seguir na luta.
Entrei em contato com as
ativistas mais engajadas, com toda a blogosfera materna, com alguns blogs
feministas. Contei o caso. Falei do relato, mas não o tinha em mãos. Torcia
para que ela escrevesse, mas sabia do quanto escrever sobre o fato era um
desafio emocional. Muitas mulheres me procuram, desabafam. Mas poucas conseguem
seguir adiante para lidar com isso. Mas ela não. No dia combinado eu recebia o
relato virtualmente. Rapidamente o repassei a quem poderia interessar. E então
se formava a grande rede de apoio¹.
Então eu sou testemunha de que o
que aconteceu aconteceu. Eu mais três ativistas que estão envolvidas com o
amparo legal do caso. E uma jornalista. Sim, o caso aconteceu.
Sobre o anonimato
Mas por que ela não tem nome nem
cara? Não aparece em nenhum lugar?
Obviamente se você faz essas
perguntas, você precisa de mais solidariedade com o outro. Vou te colocar na
seguinte situação: imagina que você sofreu um estupro. Você vai fazer o que?
Colocar na rede social e sair contando pra todo o mundo? Mas por que você não
faria isso? Não é uma situação agradável, não é? Não é uma situação que você
queira reviver com essa frequência.
Agora imagina a situação da
Maria*. Era o momento mais legal que ela poderia viver, o nascimento de seu
filho. E esse momento foi roubado. Ela foi violentada, se sentiu abusada
sexualmente. E mesmo assim cuida de seu filho 24h por dia como qualquer outra
mãe no puerpério, lidando com todas as dificuldades naturalmente já impostas
por essa fase. Mas além disso ela tem que lidar com pessoas insensíveis que
emitem julgamento porque reconheceram ela pela publicação do médico Iaperi. A
publicação teve sim repercussão negativa em sua vida.
Então não, ela não vai se expor
mais ainda. Ela quer curtir o que lhe resta. E para ter voz ela não precisa ter
cara. Todas nós mulheres damos voz a ela. E trabalharemos até que algum tipo de
justiça seja feito. E vamos nos unir e nos fortalecer cada vez mais para mudar
esse sistema.
Violência obstétrica não é
drama, é realidade.
Mas depois de ler isso tudo pode
ser que exista pessoas que acham que possa ter acontecido algo sim, mas que a
história é muito dramática.
Xa eu falar uma coisa pra você:
Violência obstétrica não é drama, é realidade.
Muitas mulheres nem sabem que
sofreram violência obstétrica. Mas relatam sentirem uma memória ruim em relação
ao parto. Nessa sociedade machista e nesse sistema patriarcal (sim, sou
feminista e luto pela igualdade), com a interpretação pra lá de medieval do “parirás
com dor”, a mulher que luta pela autonomia de seu corpo e de sua vida é taxada
de surtada, com o objetivo de humilhá-la e deslegitimar seu poder de escolha.
Então, vou colocar algumas fontes
confiáveis para você se informar e ver que violência obstétrica não é drama e
que é uma realidade das maternidades públicas e privadas brasileiras. Ah, vale
ressaltar que cesárea não salva ninguém de violência não tá? A violência
obstétrica é institucional e de gênero. Ou seja, só por ser mulher é um fator
de risco.
Vamos lá:
- Violência institucional emmaternidades públicas: hostilidade ao invés de acolhimento como uma questão degênero - Tese de doutorado da Janaína Marques de Aguiar
- Ley Orgánica Sobre El Derecho de las Mujeres a una VidaLibre de Violencia – Lei da Venezuela que caracteriza e pune atos de violência obstétrica
- Documentários: Violência Obstétrica: a voz das brasileiras, A dor além do parto
- PL 7633/14: Projeto de Lei entregue pela Artemis que abrange aspectos da humanização ao parto e nascimento e da violência obstétrica
- Dossiê Violência Obstétrica: Parirás com Dor elaborado pela ONG Parto do Princípio para a CPMI de Violência contra as mulheres
- Denúncia caso Torres/RS entregue pela Artemis referente a uma cesárea contra a vontade da paciente. www.somostodxsadelir.wordspress.com
Não importa sua opinião pessoal sobre a mulher. Houve agressão, realização de procedimentos contrários às diretrizes do MS e da OMS, à portaria 371 e muita falta de respeito. Isso é uma violência.
Mas se você ainda não ficou sensibilizado com o caso, faça o
seguinte: fique grávid@ ou acompanhe alguém grávida que queira ter um parto
natural, seguindo as recomendações da OMS, e diga que tem direito de decisão
sobre seu corpo, que você quer respeito a sua autonomia e você terá uma grande
probabilidade em testemunhar atos de violência obstétrica. Porque você está
indo contra um sistema muito produtivo para a indústria do nascimento. Porque
você depois vai ter que ir contra o corporativismo médico. Porque as pessoas
esqueceram do que é prestar o cuidado. E a violência preenche as
práticas rotineiras intervencionistas desses profissionais da assistência ao parto e nascimento.
Mas eu queria encontrar ela para dar um apoio
Deixe sua mensagem de apoio aqui: http://nosnaodormimos.tumblr.com/
E o que vocês estão fazendo?
Estamos em rede de apoio. A Lígia, do Cientista que virouMãe e as mulheres da Artemis estão coladinhas com o caso para ter
encaminhamento, como o ocorrido com o caso de Adelir. Uma denúncia já foi
entregue e acompanharemos o encaminhamento.
Você sabia?
O médico Iaperi (que disse que ia deixar a obstetrícia
#torcemos) tem um processo no passado. Ele foi acusado
pela morte de um bebê pelo uso de fórceps.
¹O Movimento pela Humanização do Parto e Nascimento no
Brasil tem uma força muito grande, porque trabalha em rede. Se você sofreu violência
obstétrica em Natal e se sente preparada para denunciar, denuncie. Você não
está só. É extremamente essencial que a violência obstétrica saia da
invisibilidade. Precisamos mudar essa realidade, todos os dias. Se você
testemunhar alguma violência também, não fique calado. Ajude a fazer uma
sociedade de paz.
Juntas somos mais fortes
domingo, 13 de julho de 2014
O reencontro, a roupa e a força
Você descobre a gravidez, a
barriga cresce, as roupas deixam de caber e mudam. O bebê nasce e você passa os
primeiros meses sem nem olhar direito pra você. Algumas passam anos. As roupas
de antes que você guardou retomam às vezes o mesmo corpo, mas não a mesma
pessoa. Talvez elas ainda te sirvam, ou não, mas não imprimem o que você quer.
Na verdade você nem sabe direito com o que se sente bem mais. Com que roupa,
com que cabelo. Mas chega uma hora que cansa tanto desencontro de si mesma.
Esse desencontro é tão comum. As
mulheres depois que são mães são encorajadas muitas vezes a se apagarem. As que
se afirmam e se expressam livremente, com ideias contrárias aos valores do
patriarcado, sofrem muitas repressões cotidianas. De todos os lados. Afinal,
poucas pessoas se deixam pensar diferente e refletir sobre seus preconceitos.
Eu senti isso depois de ser mãe.
Se já tinha ideias feministas antes, depois elas se concretizaram mais ainda. A
opressão parece que duplica. Mas a força interna quadriplica.
E aí veio ela, minha mãe. Tinha
mais de um ano que não pensava sobre o que vestia. Sabia que não tava legal,
mas não sabia também como seria. Saí uma ou duas vezes pra comprar roupa pra
mim e saía com várias roupas pra Cauã. Chegou pra mim e me deu um shortinho
jeans, bem curto. Vesti e me senti nua. Acho que nunca tinha usado algo tão curto
na minha vida. Ela me encorajou e eu saí com ele. Demorou até eu me acostumar. Às
vezes penso que até eu mesma precisava desconstruir a ideia de ser mãe
dissociada da de ser mulher.
E foi libertador. Daí pra frente,
fui me reencontrando. Mas não tanto. Foram doses homeopáticas nesses quase dois
anos. Definitivamente posso dizer que os grandes catalisadores foram as
possibilidades que tive de estar em círculo com mulheres e de estar junto de
grandes mulheres amigas. É uma coisa incrivelmente fortalecedora estar
compartilhando com mulheres.
Se você é mulher e mãe, recomendo
fortemente que tenha um grupo de amigas mães também. É incrível como nos fortalecemos
e nos curamos umas às outras. Não precisa de assunto pré-estabelecido, de
ritual, símbolos nem nada. Basta estar de alma e coração junto pra crescer. Ontem nos reunimos mais uma vez,
depois de muito tempo. Fizemos um escambo – levamos coisas do guarda-roupa que
queríamos doar. Trocamos, damos e recebemos. E nos reecontramos nos fortalecendo,
como sempre.
Muitas vezes a vestimenta está
associada com a ideia de consumo e de superficialidade. Mas ela pode não estar
também. Já pensou como a história da indumentária e a revolução feminista andam
lado a lado? Ou como o momento histórico de uma sociedade pode ser muito bem
compreendido pelas roupas que se usam? Por exemplo, na segunda guerra mundial,
na França e na Alemanha a paleta de cores das roupas eram escuras. Os tecidos,
grossos. Os sapatos, grosseiros. Porque era isso que a sociedade estava
vivendo: escassez, rigidez e tristeza.
Na vida a vestimenta pode
aparecer como fator auxiliar pro desenvolvimento de auto-confiança,
auto-conhecimento. É isso que vem acontecendo comigo e com minhas amigas de
jornada. Estamos nos reecontrando, nos reconhecendo depois de tanto nos afastarmos
de nós mesmas. E quando a gente se reencontra, a gente se fortalece. Quando a
gente compartilha, fica mais leve.
Sabe, hoje acordei diferente.
Vesti a calça que peguei de uma amiga ontem no escambo, coloquei um sapato que
não usava há cerca de 3 anos, botei um lenço na cabeça e me senti linda. Muito
provavelmente não pelas coisas que me adornavam, mas pelo que o encontro prévio
me proporcionara: um sorriso na alma e mais coragem para cumprir minha missão.
Estar em círculo com mulheres é
um presente.
Estar em contato com nosso
interior é uma sabedoria.
Poder compartilhar a jornada faz
ela mais leve, e incrivelmente mais prazerosa!
Que a energia feminina universal
esteja conosco, sempre, nos lembrando do nosso poder criador!

sexta-feira, 4 de julho de 2014
Minimalismo: menos é melhor
Lembra que postei um texto do Leo
Babauta sobre minimalismo e publicidade? Hoje retomo esse assunto, que tem
mudado a minha vida.
Tudo começou quando comecei a
estudar sobre o método Montessori. Tudo o que eu lia dizia que era
absolutamente essencial que estivéssemos atentos aos tipos de estímulos que
dávamos às crianças. Isso através dos materiais que oferecemos, da decoração
que colocamos, do que dizemos e fazemos na frente delas. E aí confesso que
ficava um pouco incomodada com isso. Li textos muitos bons sobre a importância
de ambientes “clean” (no sentido estético, além de higiênico, da palavra), mas
o conceito não entrava no meu coração. Para mim, a ideia de um ambiente
minimalista não era nada aconchegante. O que era aconchegante pra mim era algo
assim:
Aí, um belo dia uma amiga muito
querida anuncia sua mudança pro Canadá e diz que não pode levar nada. Confesso que
fiquei congelada só de pensar na ideia de ter que ir pra um lugar e levar só uma
mala. Ela tem uma filha de um ano e pouco. Tentei me colocar no lugar dela
algumas vezes... e fui ficando bastante incomodada. Sentei no sofá (que era da
casa dela, inclusive) da minha casa e fiquei parada, pensando. O que tinha ali
que eu daria? O que tinha na minha casa que era realmente essencial? Se eu
precisasse mudar pro Canadá, o que eu levaria?
E comecei a me descongelar.
Comecei a me ceder pro desapego e me despir do medo. Comecei a perceber que
aquilo era muito coerente com viver conscientemente.
Aí fui fazer minha leitura do ZenHabits, que sempre me revigora, e PÁ, um texto sobre minimalismo. Sabe,
o Leo, autor desse blog, tem SEIS filhos. Eu juro que inicialmente, pra não
sair da minha zona de conforto, pensei, ah! Mas eu tenho criança... não dá pra
ser minimalista com criança.
Mas dá. Se com seis crianças dá,
imagina com uma.
Comecei a perceber como era
absurdamente presente na minha vida coisas sem uso e como aquilo atrasava minha
vida. E comecei a me aterrorizar diante da ideia de passar esses valores pro
Cauã. Coisas que nem eu mesma percebia! Então, conversei com o companheiro (que
já era minimalista na essência) e ele topou. O desafio maior seria (e ainda é) pra
mim, eu sabia.
Comecei cômodo por cômodo. Tem
cerca de 4 meses que estou nesse processo. Já tirei mais de 10 sacos enormes de
coisas pra doar e de lixo. E a coisa começou a me dar gosto. Sabe, parar em um
ambiente e ficar refletindo sobre as coisas que tem nele e ver o que realmente
tem uso pra se desapegar é uma atividade para lá de terapêutica. Já chorei
bastante, me apeguei e desapeguei, desapeguei e apeguei de novo(mas já tinha
dado e tive que desapegar). Vendemos alguns móveis, completamente inúteis ou
acumuladores de coisas desnecessárias. E então percebi uma coisa maravilhosa.
Percebi que com menos, se tem
muito mais. Muito mais tempo, mais espaço, mais liberdade. Fica muito mais
fácil de manter as coisas organizadas, limpas. Poxa, que merda de necessidades
criadas que eu tinha (e ainda tenho) e não sabia! Confesso que hoje, se tivesse
que mudar pro Canadá sem nada, seria algo muito menos doloroso do que quatro
meses atrás.
O Minimalismo não é se livrar de
tudo. Não tem regras, na verdade. Trata-se apenas de avaliarmos o que realmente
é essencial em nossas vidas, e se livrar do resto. Para mim foi mais uma forma
de viver ativamente, refletindo sobre as coisas da minha casa, as coisas que
compro (realmente preciso delas?). Praticar o desapego. Está muito relacionado
com outros movimentos de viver conscientemente como o yoga, o veganismo e o
movimento pela humanização do parto.
E lembro do que li no blog daSandra (recomendo fortemente) sobre ser como a tartaruga. Li aquilo e achei tão bonito. Ela é de Natal
mas já morou em diversos lugares no exterior. Continua morando por lá.
Perguntaram pra ela se não era muito difícil viver assim, longe da família e
tal. Ela disse que ela é como a tartaruga, a casa dela vai com ela pra onde ela
for. Entendi essa casa não como as coisas materiais, mas os sentimentos e
memórias que ela leva sempre, independentemente de onde estiver.
Um desafio ser como as tartarugas...
E se você quer saber rapidamente mais sobre Minimalismo, dá uma olhada nesse vídeo aqui (em inglês com legenda em espanhol), é muito bom para refletir:
sexta-feira, 20 de junho de 2014
Ressignificando as birras: a criação com vínculo é o princípio da não violência (ahimsa) na educação
Juro pra você que eu não acreditava muito quando me diziam que quando Cauã crescesse é que ia dar "trabalho". Hoje percebo como na verdade o cuidado existe de maneira menos intensa do que quando são recém-nascidos, mas incrivelmente mais complexa. Se antes podíamos fazer as coisas quase que no automático hoje exige bastante auto controle e empenho em estudar para lidar com as contrariedades e dar o exemplo, educando.
Antes de ser mãe eu achava que "minha mãe me batia e eu tô aqui viva e tudo bem". Mas quando comecei a ler sobre a criação com vínculo, juro que fiquei chocada como eu pensava assim antes. Não quero ser sobrevivente, não quero que meu filho seja um sobrevivente. E comecei a perceber o ciclo de violência que se formava a partir daí. A opressão, o medo, o descontrole emocional, a falta de equilíbrio dos pais e consequentemente dos filhos.
E tem um grupo novo, do naipe da Supernanny, que não batem. E por isso acreditam que não estão educando com violência. Ao invés disso, colocam no "cantinho do pensamento". Vale ressaltar que as crianças não tem estrutura biológica e nem cognitiva para refletir sobre o que fizeram. Simplesmente não funcionam assim. Então, deixando-as sozinhas para que cheguem a conclusões sozinhas não vai fazer com que compreendam a causa do que fizeram não ser legal para os cuidadores ou para outras crianças.
Ao invés de punir as crianças, seja por tapas ou castigos, o acolhimento se mostra mais coerente com a estrutura cognitiva e biológica para estruturar a compreensão das atitudes e emoções. Vamos combinar que essa opção também é mais.... Humana, não é mesmo? Falamos tanto da humanização do cuidado, da saúde, da morte, de tudo.... e da educação também.
Recentemente fiz um curso de yoga para gestantes e durante o curso deram o exemplo de criação com limites no estilo de educação mostrada nos programas da Supernanny. Confesso que fiquei um tanto surpresa, achei bastante incoerente. Na yoga falamos, aprendemos e procuramos viver o ahimsa, que é o princípio da não violência. Ele deve estar em todos os aspectos da nossa existência: no falar, no pensar, no comer, no agir e claro no educar. Achei importante colocar a situação da criação com vínculo e outras instrutoras de yoga entenderam inicialmente que era um modo de educar permissivo. Mas depois esclareci que não é.
E não é. A criação com vínculo não tem uma cartilha pronta, mas fornece as ferramentas para que possamos compreender os momentos pelos quais as crianças estão passando, os turbilhões de picos de crescimento, maturação neuronal, motora, dentre outras, para que possamos estabelecer os limites com afeto. Conheço amigas que tem filhos com 3, 6 e 9 anos que nunca se utilizaram de tapas ou castigos para educação e que tem filhos com limites.
Assim podemos cortar o ciclo da violência. Mostrando que através do diálogo podemos nos entender, podemos ajudar um ao outro a entender melhor os sentimentos e as situações, estreitando o vínculo e promovendo a paz. Isso é ahimsa na educação.
Muitas pessoas desconhecem a criação com vínculo e por isso é de extrema importância que possamos divulgar cada vez mais para que os pais criem uma rede de apoio e troquem figurinhas sobre a criação. Afinal, sabemos o tanto que ma/paternar é um desafio diário e uma belíssima oportunidade de melhorarmos a nós mesmos para sermos bons exemplos pros nossos filhos.
Vale cada minuto ver o vídeo abaixo do programa Em Família do Canal Saúde:
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