domingo, 13 de julho de 2014

O reencontro, a roupa e a força

Você descobre a gravidez, a barriga cresce, as roupas deixam de caber e mudam. O bebê nasce e você passa os primeiros meses sem nem olhar direito pra você. Algumas passam anos. As roupas de antes que você guardou retomam às vezes o mesmo corpo, mas não a mesma pessoa. Talvez elas ainda te sirvam, ou não, mas não imprimem o que você quer. Na verdade você nem sabe direito com o que se sente bem mais. Com que roupa, com que cabelo. Mas chega uma hora que cansa tanto desencontro de si mesma.
Esse desencontro é tão comum. As mulheres depois que são mães são encorajadas muitas vezes a se apagarem. As que se afirmam e se expressam livremente, com ideias contrárias aos valores do patriarcado, sofrem muitas repressões cotidianas. De todos os lados. Afinal, poucas pessoas se deixam pensar diferente e refletir sobre seus preconceitos.

Eu senti isso depois de ser mãe. Se já tinha ideias feministas antes, depois elas se concretizaram mais ainda. A opressão parece que duplica. Mas a força interna quadriplica.

E aí veio ela, minha mãe. Tinha mais de um ano que não pensava sobre o que vestia. Sabia que não tava legal, mas não sabia também como seria. Saí uma ou duas vezes pra comprar roupa pra mim e saía com várias roupas pra Cauã. Chegou pra mim e me deu um shortinho jeans, bem curto. Vesti e me senti nua. Acho que nunca tinha usado algo tão curto na minha vida. Ela me encorajou e eu saí com ele. Demorou até eu me acostumar. Às vezes penso que até eu mesma precisava desconstruir a ideia de ser mãe dissociada da de ser mulher.

E foi libertador. Daí pra frente, fui me reencontrando. Mas não tanto. Foram doses homeopáticas nesses quase dois anos. Definitivamente posso dizer que os grandes catalisadores foram as possibilidades que tive de estar em círculo com mulheres e de estar junto de grandes mulheres amigas. É uma coisa incrivelmente fortalecedora estar compartilhando com mulheres.

Se você é mulher e mãe, recomendo fortemente que tenha um grupo de amigas mães também. É incrível como nos fortalecemos e nos curamos umas às outras. Não precisa de assunto pré-estabelecido, de ritual, símbolos nem nada. Basta estar de alma e coração junto pra crescer. Ontem nos reunimos mais uma vez, depois de muito tempo. Fizemos um escambo – levamos coisas do guarda-roupa que queríamos doar. Trocamos, damos e recebemos. E nos reecontramos nos fortalecendo, como sempre.

Muitas vezes a vestimenta está associada com a ideia de consumo e de superficialidade. Mas ela pode não estar também. Já pensou como a história da indumentária e a revolução feminista andam lado a lado? Ou como o momento histórico de uma sociedade pode ser muito bem compreendido pelas roupas que se usam? Por exemplo, na segunda guerra mundial, na França e na Alemanha a paleta de cores das roupas eram escuras. Os tecidos, grossos. Os sapatos, grosseiros. Porque era isso que a sociedade estava vivendo: escassez, rigidez e tristeza.

Na vida a vestimenta pode aparecer como fator auxiliar pro desenvolvimento de auto-confiança, auto-conhecimento. É isso que vem acontecendo comigo e com minhas amigas de jornada. Estamos nos reecontrando, nos reconhecendo depois de tanto nos afastarmos de nós mesmas. E quando a gente se reencontra, a gente se fortalece. Quando a gente compartilha, fica mais leve.

Sabe, hoje acordei diferente. Vesti a calça que peguei de uma amiga ontem no escambo, coloquei um sapato que não usava há cerca de 3 anos, botei um lenço na cabeça e me senti linda. Muito provavelmente não pelas coisas que me adornavam, mas pelo que o encontro prévio me proporcionara: um sorriso na alma e mais coragem para cumprir minha missão.

Estar em círculo com mulheres é um presente.

Estar em contato com nosso interior é uma sabedoria.

Poder compartilhar a jornada faz ela mais leve, e incrivelmente mais prazerosa!  

Que a energia feminina universal esteja conosco, sempre, nos lembrando do nosso poder criador!

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Minimalismo: menos é melhor

Lembra que postei um texto do Leo Babauta sobre minimalismo e publicidade? Hoje retomo esse assunto, que tem mudado a minha vida.

Tudo começou quando comecei a estudar sobre o método Montessori. Tudo o que eu lia dizia que era absolutamente essencial que estivéssemos atentos aos tipos de estímulos que dávamos às crianças. Isso através dos materiais que oferecemos, da decoração que colocamos, do que dizemos e fazemos na frente delas. E aí confesso que ficava um pouco incomodada com isso. Li textos muitos bons sobre a importância de ambientes “clean” (no sentido estético, além de higiênico, da palavra), mas o conceito não entrava no meu coração. Para mim, a ideia de um ambiente minimalista não era nada aconchegante. O que era aconchegante pra mim era algo assim:
Aí, um belo dia uma amiga muito querida anuncia sua mudança pro Canadá e diz que não pode levar nada. Confesso que fiquei congelada só de pensar na ideia de ter que ir pra um lugar e levar só uma mala. Ela tem uma filha de um ano e pouco. Tentei me colocar no lugar dela algumas vezes... e fui ficando bastante incomodada. Sentei no sofá (que era da casa dela, inclusive) da minha casa e fiquei parada, pensando. O que tinha ali que eu daria? O que tinha na minha casa que era realmente essencial? Se eu precisasse mudar pro Canadá, o que eu levaria?

E comecei a me descongelar. Comecei a me ceder pro desapego e me despir do medo. Comecei a perceber que aquilo era muito coerente com viver conscientemente.

Aí fui fazer minha leitura do ZenHabits, que sempre me revigora, e PÁ, um texto sobre minimalismo. Sabe, o Leo, autor desse blog, tem SEIS filhos. Eu juro que inicialmente, pra não sair da minha zona de conforto, pensei, ah! Mas eu tenho criança... não dá pra ser minimalista com criança.

Mas dá. Se com seis crianças dá, imagina com uma.

Comecei a perceber como era absurdamente presente na minha vida coisas sem uso e como aquilo atrasava minha vida. E comecei a me aterrorizar diante da ideia de passar esses valores pro Cauã. Coisas que nem eu mesma percebia! Então, conversei com o companheiro (que já era minimalista na essência) e ele topou. O desafio maior seria (e ainda é) pra mim, eu sabia.

Comecei cômodo por cômodo. Tem cerca de 4 meses que estou nesse processo. Já tirei mais de 10 sacos enormes de coisas pra doar e de lixo. E a coisa começou a me dar gosto. Sabe, parar em um ambiente e ficar refletindo sobre as coisas que tem nele e ver o que realmente tem uso pra se desapegar é uma atividade para lá de terapêutica. Já chorei bastante, me apeguei e desapeguei, desapeguei e apeguei de novo(mas já tinha dado e tive que desapegar). Vendemos alguns móveis, completamente inúteis ou acumuladores de coisas desnecessárias. E então percebi uma coisa maravilhosa.

Percebi que com menos, se tem muito mais. Muito mais tempo, mais espaço, mais liberdade. Fica muito mais fácil de manter as coisas organizadas, limpas. Poxa, que merda de necessidades criadas que eu tinha (e ainda tenho) e não sabia! Confesso que hoje, se tivesse que mudar pro Canadá sem nada, seria algo muito menos doloroso do que quatro meses atrás.

O Minimalismo não é se livrar de tudo. Não tem regras, na verdade. Trata-se apenas de avaliarmos o que realmente é essencial em nossas vidas, e se livrar do resto. Para mim foi mais uma forma de viver ativamente, refletindo sobre as coisas da minha casa, as coisas que compro (realmente preciso delas?). Praticar o desapego. Está muito relacionado com outros movimentos de viver conscientemente como o yoga, o veganismo e o movimento pela humanização do parto.

E lembro do que li no blog daSandra (recomendo fortemente) sobre ser como a tartaruga. Li aquilo e achei tão bonito. Ela é de Natal mas já morou em diversos lugares no exterior. Continua morando por lá. Perguntaram pra ela se não era muito difícil viver assim, longe da família e tal. Ela disse que ela é como a tartaruga, a casa dela vai com ela pra onde ela for. Entendi essa casa não como as coisas materiais, mas os sentimentos e memórias que ela leva sempre, independentemente de onde estiver.

Um desafio ser como as tartarugas...

E se você quer saber rapidamente mais sobre Minimalismo, dá uma olhada nesse vídeo aqui (em inglês com legenda em espanhol), é muito bom para refletir:

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Ressignificando as birras: a criação com vínculo é o princípio da não violência (ahimsa) na educação

Juro pra você que eu não acreditava muito quando me diziam que quando Cauã crescesse é que ia dar "trabalho". Hoje percebo como na verdade o cuidado existe de maneira menos intensa do que quando são recém-nascidos, mas incrivelmente mais complexa. Se antes podíamos fazer as coisas quase que no automático hoje exige bastante auto controle e empenho em estudar para lidar com as contrariedades e dar o exemplo, educando.
Antes de ser mãe eu achava que "minha mãe me batia e eu tô aqui viva e tudo bem". Mas quando comecei a ler sobre a criação com vínculo, juro que fiquei chocada como eu pensava assim antes. Não quero ser sobrevivente, não quero que meu filho seja um sobrevivente. E comecei a perceber o ciclo de violência que se formava a partir daí. A opressão, o medo, o descontrole emocional, a falta de equilíbrio dos pais e consequentemente dos filhos.

E tem um grupo novo, do naipe da Supernanny, que não batem. E por isso acreditam que não estão educando com violência. Ao invés disso, colocam no "cantinho do pensamento". Vale ressaltar que as crianças não tem estrutura biológica e nem cognitiva para refletir sobre o que fizeram. Simplesmente não funcionam assim. Então, deixando-as sozinhas para que cheguem a conclusões sozinhas não vai fazer com que compreendam a causa do que fizeram não ser legal para os cuidadores ou para outras crianças. 

Ao invés de punir as crianças, seja por tapas ou castigos, o acolhimento se mostra mais coerente com a estrutura cognitiva e biológica para estruturar a compreensão das atitudes e emoções. Vamos combinar que essa opção também é mais.... Humana, não é mesmo? Falamos tanto da humanização do cuidado, da saúde, da morte, de tudo.... e da educação também.

Recentemente fiz um curso de yoga para gestantes e durante o curso deram o exemplo de criação com limites no estilo de educação mostrada nos programas da Supernanny. Confesso que fiquei um tanto surpresa, achei bastante incoerente. Na yoga falamos, aprendemos e procuramos viver o ahimsa, que é o princípio da não violência. Ele deve estar em todos os aspectos da nossa existência: no falar, no pensar, no comer, no agir e claro no educar. Achei importante colocar a situação da criação com vínculo e outras instrutoras de yoga entenderam inicialmente que era um modo de educar permissivo. Mas depois esclareci que não é.

E não é. A criação com vínculo não tem uma cartilha pronta, mas fornece as ferramentas para que possamos compreender os momentos pelos quais as crianças estão passando, os turbilhões de picos de crescimento, maturação neuronal, motora, dentre outras, para que possamos estabelecer os limites com afeto. Conheço amigas que tem filhos com 3, 6 e 9 anos que nunca se utilizaram de tapas ou castigos para educação e que tem filhos com limites.   

Assim podemos cortar o ciclo da violência. Mostrando que através do diálogo podemos nos entender, podemos ajudar um ao outro a entender melhor os sentimentos e as situações, estreitando o vínculo e promovendo a paz. Isso é ahimsa na educação.

Muitas pessoas desconhecem a criação com vínculo e por isso é de extrema importância que possamos divulgar cada vez mais para que os pais criem uma rede de apoio e troquem figurinhas sobre a criação. Afinal, sabemos o tanto que ma/paternar é um desafio diário e uma belíssima oportunidade de melhorarmos a nós mesmos para sermos bons exemplos pros nossos filhos.

Vale cada minuto ver o vídeo abaixo do programa Em Família do Canal Saúde:


quinta-feira, 19 de junho de 2014

Um chamado para a revolta: a publicidade é anti-minimalista

Tem um site que eu adoro ler. Principalmente quando me sinto meio down precisando de uma leitura revigorante, corro pra ele. Foi ele, o Leo Babauta que me instigou na busca em ser minimalista. Faz uns 4 meses que estamos nesse movimento aqui em casa, e tem sido uma roda gigante de emoções. Mas antes de falar do que venho vivendo, achei interessante traduzir esse texto dele sobre minimalismo e publicidade publicado nessa semana no site dele, o Zen Habits. Acredito que esteja muito relacionado a muitas coisas que falo aqui no blog. Os textos dele são livres de direitos autorais, porque assim ele acredita que suas palavras alcancem um maior número de pessoas. O nome do texto original é  A Call for Revolt: Advertising is the Anti-Minimalism, que você pode acessar clicando aí no título em inglês.

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O maior obstáculo para uma vida minimalista é a publicidade.

Vamos pensar sobre essa afirmação por um minuto: o que é uma vida minimalista e o que nos impede de alcança-la? Como a publicidade está envolvida?
Uma vida minimalista pode ser muitas coisas, mas em sua essência é tornar-se consciente sobre o que temos em nossas vidas. O espaço é limitado: nós temos horas limitadas em um dia, anos limitados em nossas vidas e espaços físicos limitados em nossas casas.
E nós enchemos todo esse espaço limitado inconscientemente, enchendo-o demais sem considerar ao menos se essa é a melhor maneira para usar nosso espaço.
Minimalismo é sobre pausa, e questionamentos sobre o que realmente é necessário. O que pertence a esse espaço e o que pode ser retirado? É a fantasia em nossas mentes que é a causa para buscarmos preencher inconscientemente a realidade que pensamos que fôssemos viver?
O objetivo da publicidade é exatamente o oposto: ela quer que nós gastemos sem pensar sobre isso. Quer quer compramos no impulso. Quer implantar fantasias em nossas mentes que façam com que saiamos e compremos.
Pense sobre um anúncio para roupa, ou para um produto da Apple, por exemplo: eles mostram lindas pessoas vivendo vidas maravilhosas, centrada na solução simples de possuir o produto em suas mãos (ou em seus corpos).
Anúncios para um sabão fazem com que pensemos que nós não teremos somente uma pele limpa, mas uma maçã do rosto perfeita e um namorado bonitão que nos ama.
Anúncios para um novo aplicativo fazem com que pensamos que de repente seremos mais organizados e mais produtivos e todas nossas necessidades serão magicamente sanadas com esse programa muito bem desenhado em nosso smartphone.
Obviamente, nada disso é verdade – nós não seremos mais organizados nem produtivos, nem mais saudáveis e bonitos, nem mais propensos a ter um(a) namorad@ bonit@ se comprarmos qualquer um desses produtos. Seremos apenas mais pobres com mais coisas para encher nossas já tão cheias vidas.
O pior da publicidade é que não só implanta fantasia em nossas mentes que nós instantaneamente queremos... como também nos dá uma sensação de vazio. De repente não nos sentimos completes, nem felizes, porque não vivemos a vida ideal. Nós não somos bons o suficiente ainda. Nós não somos felizes ainda.
E comprar não irá melhorar esse vazio. Nós compramos, e ainda não temos a fantasia, e então nos sentimos mal sobre nós mesmos. Nós ainda temos o vazio em nossos corações que nunca poderá ser preenchido.
Publicidade é o sussurro insidioso do anjo mal do comércio.
Eu não culpo os publicitários: eles foram pegos em um jogo onde eles tem que fazer publicidade ou morrer. Eu não culpo os consumidores: essa é a sociedade em que vivemos e nós nunca vivemos de uma maneira diferente.
Eu não culpo nem as agências de publicidade: os Googles e Don Draper do mundo só estão tentando fazer grana como tomo mundo, e descobriram o que funciona. Por que não fazer o que é eficaz, né?
Não culpe o jogador. Culpe o jogo.
Estamos presos em um jogo no qual temos que fazer mais dinheiro e consequentemente fazer propaganda, e para ser eficaz nisso precisamos introduzir fantasias inalcançáveis, um sentimento de vazio que não pode ser atenuado.
Estamos presos em um jogo onde o processo inteiro é OK com todo mundo, na verdade porque os mais bem-sucedidos são aplaudidos - Steve Jobs, Jeff Bezos, Barack Obama, Larry Page, Mark Zuckerberg, Steven Speilberg, Walt Disney, et al – eles são os vencedores de nossa sociedade. Nós endeusamos eles.
As pessoas que fogem desse jogo são ridicularizadas e taxadas pejorativamente de hippies, esquisitões e vagabundos.
Eu digo que devemos sair desse jogo. Pegue ele pelo cinto e mande-o para a calçada.
Eu acho que devemos nos revoltar.
Nós podemos nos revoltar simplesmente escolhendo sair disso. Eles não tem uma opção de entrada no formulário desse jogo, mas nós mesmo assim podemos sair mesmo sem terem nos dado essa possibilidade.
Nós podemos fugir não assistindo propagandas. Não tendo elas em nossos sites. Não comprando ingressos pra filmes que são simplesmente propagandas inteligentes. Não acreditando nas fantasias. Não comprando por impulso. Não usar como terapia ir às compras. Não usar compras como uma solução para tudo. Não apoiar as mídias que apenas estão lá para que leiamos os anúncios entre as estórias. Não indo a sites que tenham propagandas com popups intrusos. Não ouvindo a propagandas da radio. Não assistindo vídeos online que tenham propagandas. Não usando o email com propaganda. Não utilizando logos em nossas roupas. Não tatuando logos em nossos corpos. Não indo para parques temáticos que são apenas grandes propagandas para seus produtos. Não comprando quando estamos de férias. Não comprando presentes para celebrar datas. Não comprando smartphones por causa de anúncios que vimos. Não comprando roupa ou maquiagem ou produtos para a pele que façam com que pareçamos com a fantasia. Não lendo revistas que tentam fazer com que tenhamos uma fantasia de como deveríamos parecer. Não assistir a programas de TV patrocinados por anúncios.

Parece muito? Sim, eu concordo: estamos muito impregnados em propagandas. Não podemos sair deles. Somos dependentes. A revolta é muito revoltante. De volta a sua programação regular programada

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Seu discurso é contra produtivo?

Cauã enfia o dedo na tomada. Eu digo Não faça isso Cauã, machuca. Ele faz de novo. Eu digo Cauã, Não. Ele faz de novo. Eu digo com a voz alterada Cauã, NÃO pode. Ele continua. Chego a conclusão de que não adianta perder a cabeça, gritar e se estressar. Estou sendo contra produtiva. Não estou oferecendo outras opções mais interessantes que a tomada naquele momento. Tomo consciência, olho ao redor e peço pra ele pegar a bolinha do gato que estava no corredor. Ele vai, joga e começa a brincar comigo e o gato. Não volta pra tomada. 
Tem tantos momentos na nossa vida que somos contra produtivos. Algumas pessoas costumam ser na maior parte do tempo. Mas quando estamos vivendo conscientemente de nossas ações, muito dificilmente aceitaremos viver sendo contra produtivos. Porque ser contra produtivo cansa bem mais do que não ser. Exige maior energia em tentar se fazer entender e acabamos escolhendo vias negativas para conseguir uma comunicação eficaz, geralmente nos impondo através do grito, da grosseria. E aí as coisas tendem a ficar bem mais pesadas e desagradáveis. Lembro que quando comecei a ser ativista da Humanização do parto, tinha a errônea concepção de que as mulheres que faziam cesáreas e que tinham um discurso cesarista fossem pessoas más. Depois de amadurecer e de me informar, consegui sair do papel da dualidade de bomXmau e passei a perceber como era ruim pra mim entrar em debates contra produtivos com pessoas que não estavam a fim de compartilhar, ouvindo e falando, mas de impor o que acreditavam. E eu era uma dessas também. Queria impor. Agora não faço mais isso. Me consumia um montante de energia que agora escolho empregar pra fazer a informação chegar através de ações educativas aonde ela não está chegando:nas mulheres. Em outras esferas da nossa vida também podemos ser contra produtivos: nos relacionamento quando não falamos abertamente o que sentimos, quando estamos obcecados por algo que por algum motivo de ordem superior (destino? Deus? Energia cósmica ou como queira chamar) não acontece nunca, quando entulhamos nossas casas e armários de coisas além do que é realmente necessário (apesar de quantitativamente isso ser subjetivo), quando pensamos demais e não agimos nunca, quando não cuidamos da nossa saúde, da nossa alimentação, da nossa mente.... Ou quando o medo nos paralisa. Para mim a maternidade se mostra sempre como agente catalisador de mudanças positivas, e viver conscientemente em todos os aspectos da minha vida tem feito a minha vida melhor e bem mais produtiva. Quando digo produtiva, não me refiro à conotação negativa do modus operandi capitalista. Quero dizer que me tornei mais consciente do que quero fazer aqui, de quanto e como gasto minha energia, meu tempo de maneira a tornar a vida mais leve e feliz de acordo com meus valores e crenças de agora. 
E você? Já percebe quando é contra produtivo? Onde gasta mais energia?

terça-feira, 13 de maio de 2014

Um pensamento escrito

Eu te acalento. Você me abraça. Felicidade, leveza. Cumplicidade. A jornada não é fácil. Mas é bela e pode ser leve e deliciosa. Amizade, entrega. Amor. Disputa não. Vamos trocar? Somar, multiplicar, crescer! O amor. A gentileza. A compaixão. Juntas. Dá a mão. Vem. 

A existência pode ser muito mais interessante se estivermos envolvidos por sentimentos e pensamentos bons e cercados de companheirismo, em qualquer relação.

A maternidade não é um campo de disputas. Ela pode até se tornar, mas eu não entro no ciclo. Juro pra mim mesma que não vou entrar. Que não vou vibrar essa energia. Porque ela não é legal. Ela divide, e enfraquece tudo que pode ser positivo. Então, mesmo com pensamentos e maternagens que não são as mesmas, e nunca serão no todo, podemos maternar e conviver em paz. Desde que estejamos com energias afins. A minha está muito a fim de compartilhar e de crescer e me fortalecer com outras mulheres.

E a sua?

Juntas somos mais fortes.

Foto de witchclubhouse.blogspot.com

quarta-feira, 26 de março de 2014

Sobre o desmame

Eu sou apoiadora incondicional da amamentação. Quando fiquei grávida esperava ansiosamente por esse momento. Quando ele aconteceu, depois de alguns perrengues, foi maravilhoso! No início eu não entendia mulheres que não queriam amamentar. Na verdade não só não entendia, como também as julgava. E depois, ao longo do tempo, fui vivenciando a maternidade e percebendo os vários aspectos emocionais relacionados à amamentação e percebendo como é complexa essa entrega. Laura Gutman, no livro A revolução das mães: o desafio de nutrir nossos filhos, diz:
Portanto, digamos com todas as letras: para dar de mamar temos que estar dispostas a perder toda a autonomia, liberdade e tempo para nós mesmas. É uma decisão. Na medida em que optemos por uma modalidade, perderemos vantagens na outra. Explicando de outra forma: se nos apegamos a nossa liberdade pessoal, possivelmente o bebê tenha que se conformar com outros alimentos, porque mãe e filho não encontrarão prazer nem relaxarão na amamentação. Ou, ao contrário, se decidimos dar prioridade a amamentação, perderemos liberdade e vida própria. Ambas as situações, amamentação e liberdade, não são compatíveis. Ninguém pode determinar o que é que cada qual deve fazer. Mas sim é importante que saibamos o que ganhamos e o que perdemos frente a cada decisão”
Confesso que em alguns momentos amamentar pode ser bem cansativo e enfadonho, principalmente quando há um aumento da demanda ou quando passamos por estresses da vida cotidiana. Algumas vezes nesse um ano e cinco meses de amamentação já cogitei a possibilidade de fazer o desmame, por não estar disponível emocionalmente a me entregar pra amamentação. No meu caso, quando passo por essas sensações negativas procuro uma maneira de lidar primeiro com elas sem interferir na amamentação, para perceber se consigo me resolver para voltar a me entregar. E tem funcionado. Mas para algumas mães não é possível, e é essencial conhecer nossos limites. Passei a estudar cada vez mais como seria possível fazer um desmame respeitoso com a criança e que respeitasse também os limites da mãe, depois que algumas amigas passaram por situações emocionais bem complicadas que não seriam fáceis de resolver e que se sentiam exaustas para amamentar.

A amamentação é muito importante pra saúde da mulher, do bebê e para o vínculo de ambos. Previne doenças, aumenta o sistema imunológico, auxilia na construção da confiança, no desenvolvimento craniofacial, entre tantos outros benefícios. A Organização Mundial da Saúde (OMS) orienta amamentar exclusivamente até os 6 meses e de maneira continuada até 2 anos ou mais. A composição do leite muda de acordo com o crescimento da criança. O leite materno é tão perfeito que contém exatamente o que a criança precisa naquela faixa etária. Por exemplo, o leite materno no segundo ano de vida é composto por:


  • 95% do total de vitamina C necessária;
  • 45% do total de vitamina A necessária;
  • 38% do total de proteínas necessárias;
  • 31% de calorias necessárias.

Outro ponto importante é que a proteção imunológica continua enquanto a criança é amamentada. Alguns benefícios extras de crianças amamentadas são: ficam menos doentes, tem menos diarreia, vão menos ao pediatra, tem menor risco de desenvolver obesidade, maior facilidade de sociabilidade, são mais espertas e permite um desenvolvimento emocional mais sólido. A amamentação se torna uma importante atividade para auxiliar a criança a adquirir sua independência. E essa aquisição ocorre de maneira natural quando ocorre o desmame natural, pois não se força a criança a pular estágios que ela ainda não alcançou de seu desenvolvimento. Desconheço artigos científicos que tragam pontos negativos da amamentação prolongada. O que os profissionais de saúde muitas vezes indicam, um desmame a um ano de vida na verdade está relacionado a fatores culturais e não às evidências científicas e orientações da OMS e MS.


O homem é o único mamífero em que o desmame (aqui definido como a cessação do aleitamento materno) não é primariamente determinado por fatores genéticos e instinto, sendo fortemente influenciado por fatores socioculturais. “ Elsa Regina Justo Giugliani, SBP
Um estudo de 1993¹ relata que a idade média encontrada para o desmame natural foi de 3 a 4 anos. O desmame precoce tem sido associado a uma necessidade emergencial de maior independência das crianças; sem a preocupação se ela está preparada para essa quebra. Ossos do ofício do modo de vida ocidental pós industrial onde os bebês aparentemente tem que sobreviver, porque a “vida não é fácil”, “ter independência é muito importante”. Enfim, com a industrialização da vida e o distanciamento do nosso eu, a relação mãe e bebê acaba sendo desconexa, mecânica, o que prejudica as interpretações dos símbolos que o bebê mostra. Ou seja, não há uma comunicação eficaz entre mãe e o bebê. Mera coincidência ou um reflexo da maneira que a sociedade vive?
Hoje, em muitas culturas “modernas”, a amamentação prolongada (cujo conceito varia de acordo com a “convenção” da época e do local) freqüentemente é vista como um distúrbio inter-relacional entre mãe e bebê. Perdeu-se a noção de que o desmame não é um evento e sim um processo, que faz parte da evolução da mulher como mãe e do desenvolvimento da criança, assim como sentar, andar, correr, falar. Nesta lógica, assim como nenhuma criança começa a andar antes de estar pronta, nenhuma criança deveria ser desmamada antes de atingir a maturidade para tal. Em harmonia com esta linha de pensamento, Dr. William Sears, um antigo pediatra, recomendava “Não limite a duração da amamentação a um período pré-determinado. Siga os sinais do bebê. A vida é uma série de desmames, do útero, do seio, de casa para a escola, da escola para o trabalho. Quando uma criança é forçada a entrar em um estágio antes de estar pronta, corre o risco de afetar o seu desenvolvimento emocional”. Essas palavras sábias podem ter pouco respaldo em sociedades individualistas, que tendem a acelerar o processo de independização do ser humano, substituindo o seio por métodos de auto-consolo como chupetas, paninhos, mantinhas, ursinhos, etc. […] Já se avançou muito na valorização do aleitamento materno nos últimos tempos. A recomendação da duração da amamentação passou de 10 meses na década de 30 para dois anos ou mais nos dias de hoje. Atualmente, fala-se em desmame natural como a forma ideal de desmame, sem especificar uma idade mínima ou máxima para que esse processo ocorra. Apesar desse avanço ainda estamos longe de encararmos o desmame como um marco do desenvolvimento da criança. Para chegarmos a este estágio, faz-se necessário entender e enfrentar as circunstâncias que, segundo Souza e Almeida, “ultrapassam a natureza e desafiam a cultura e a sociedade”. Elsa Regina Justo Giugliani, SBP
Há também uma sexualização do ato de amamentar. Culturalmente crianças que andam e que são amamentadas são vistas com certa desconfiança. Para algumas pessoas há até mesmo a desconfiança em relação à saciedade e ao teor nutritivo que o leite materno pode ter. O leite da vaca seria melhor? Não. O leite da vaca é do bezerro. E não deveria ser de ninguém mais. Pela vaca, pelo bezerro e pela saúde do nosso corpo, que consome uma bomba e sobrecarrega o organismo desnecessariamente, desequilibrando-o e tornando-o mais propenso ao desenvolvimento de doenças. (Saiba mais aqui)
“Através da amamentação, a mãe recebe uma resposta da boca do seu filho, das mãos dele, do corpo e dos olhos dele. Isso dá-lhe informação sobre como ele se sente e sobre o que ele está a fazer. Quase todas as mães que amamentam até mais tarde, afirmam que esta intimidade com o bebê é o elemento mais satisfatório da amamentação. Quando a mãe está a ter este tipo de prazer, ele transmite-se, por sua vez, ao seu filho. Os sorrisos dela, as carícias e o relaxamento do seu corpo, tudo isso ajuda a tornar a experiência da amamentação mais agradável para o seu filho, também. O contato da pele entre mãe e filho, estimula a hormona prolactina que pode aumentar os sentimentos maternais. Estes sentimentos maternais e de proteção em relação ao filho defende a criança de possíveis maus tratos e abandono por parte da mãe. Em países onde se tem melhorado e aumentado a amamentação devido às mudanças nas práticas hospitalares para que não haja separação entre a mãe e o bebé, encontrou-se uma redução no abandono de bebés por parte das mães.”¹
E quando amamentar não é mais prazeroso para a mãe? Quado ela está desgastada por diversos fatores de seu cotidiano, cansada emocionalmente, o que fazer? Antes de orientar a como fazer um desmame artificial de maneira gradual e mais respeitosa ao tempo do bebê, é bom nos perguntarmos as motivações de realizar o desmame, tomar consciência das consequências para mãe e bebê e para que a mãe tome uma decisão. Eu mesma, em alguns dias exaustivos ou em situações emocionalmente ruins, não sinto o prazer e a disposição em amamentar que sinto em outras oportunidades. Ajuda conversar com alguém, sair pra caminhar, ir a praia... 
“O pedido de ajuda para desmamar deve ser ouvido e acolhido com um pouco mais de sensibilidade por parte de quem se propõe a ajudar, visto que, na maioria das vezes, quando a mulher consegue verbalizar verdadeiramente o que a incomoda ou deseja, e uma vez que isso é realmente sanado, a amamentação pode continuar seguindo tranquilamente um caminho de alegria e sintonia entre mãe e filho!  Geralmente o pedido para desmamar é apenas um SINTOMA que demonstra outros problemas, outros desejos e necessidades daquela mãe, que são, na verdade, as coisas que precisam de cuidado e atenção. E passar por isso, para a mulher, pode ser uma ótima oportunidade para que ela aprenda a enxergar, verbalizar e legitimar seus verdadeiros sentimentos, desejos e necessidades! “ Luzinete R. C. Carvalho (psicanalista) (GVA)
Existem alguns tipos de desmame: o abrupto, o noturno, o gradual e o natural. O desmame abrupto é aquele feito sem levar em consideração o tempo da criança, de maneira abrupta. O desmame noturno é o que caracteriza um desmame guiado pelo bebê somente pelo período da noite/madrugada. O desmame gradual é também guiado pelo bebê e feito de maneira lenta. O desmame natural é o desmame ideal, quando a criança deixa de mamar sozinha. Não existe receita de bolo para fazer o desmame. Mas ele deve ser feito considerando a idade do bebê. No mínimo do mínimo um ano, mas mesmo assim as perdas são muito grandes. A partir dos dois anos pode-se considerar um mínimo com menos prejuízos. Cada binômio é um mundo diferente, carregado de emoções, vivências, rotinas e pessoas diferentes. O que temos que ter em mente, após conhecer e pesar na balança os motivos e os prejuízos para o desmame é que ele deve ser feito de maneira gradual, carinhosa e respeitosa ao tempo do bebê; por acordo da mãe e do bebê. Existem três aspectos que devem ser observados se existem sem a amamentação para considerar o desmame, que são sinais da maturidade e autonomia da criança: nutrição, afeto e comunicação.

Os estudos científicos mostram que o desmame não melhora o sono, nem o apetite e não torna o bebê um ser independente. Fique atenta a profissionais de saúde que indicam desmame por prescrição de medicamento. Muitos deles tem total desconhecimento que a maioria dos fármacos são compatíveis com a amamentação. Confira a lista de medicamentos que podem ser utilizados na amamentação de fontes confiáveis aqui e aqui. O desmame natural ocorre quando o bebê está pronto, é um estágio de seu desenvolvimento que foi atingido e que ele suspende por ter suprido o que lhe faltava para seguir adiante.

Jamais deve-se utilizar artifícios para que a criança rejeite o peito.
"O mais cruel e nocivo dos desmames abruptos é aquele que faz com que a criança prove no seio da mãe algo ácido, azedo ou amargo, especialmente quando isso é associado a uma visão terrível (seios pintados, com band-aid etc) do seio, objeto que até então só trazia prazer e que aparece repentinamente como algo assustador. […] Esses sentimentos e impressões ficam inscritos no córtex para o resto da vida, a confusão entre prazer e desprazer ficará gravada e um dos sintomas mais comuns será a inabilidade da pessoa para acreditar que merece prazer e que ele pode ser algo perene, confiável. Perdurará a impressão de que o prazer pode a qualquer momento virar uma ameaça. Nos piores casos a pessoa não consegue buscar o prazer, já caminha diretamente para a punição.Cláudia Rodrigues (retirado do Grupo Virtual de amamentação)
A amamentação é o primeiro vínculo entre mãe e bebê e é preciso compreender isso como a solidificação de uma relação de uma vida inteira. O que ocorre nessa fase fica guardado e pode refletir na infância e vida adulta em sentimento ruins sem causa aparentemente explicável. Por isso é preciso mais sensibilidade para enxergar esse momento e procurar ter respeito, amor e cuidado. O desmame gradual permite uma adaptação física e emocional da mãe e do bebê. Na mãe o desmame abrupto está relacionado à depressão, ingurgitamento mamário, mastite. O desmame gradual respeita a maneira que o bebê lida com a perda do contato íntimo da amamentação ao ser substituída por outros contatos.

Existem alguns métodos para o desmame noturno, como o da Elizabeth Pantley, Dr. Jay Gordon (ambos em inglês). Em português traduzido o da Elizabeth Pantley tem na De Peito Aberto Esses métodos são guiados pelo bebê e não concordo com nenhum deles plenamente. Talvez eles possam servir de orientação geral e não como um passo a passo. É preciso estar atento aos sinais que o bebê dá, considerar modificar outros aspectos e ir percebendo, escutando seu coração para ver o que funciona melhor para vocês.

Deixo abaixo como sugestão essas leituras para que as mães façam decisões conscientes.

DIGA NÃO AO DESMAME ABRUPTO.

Fontes:
-A revolução das mães: o desafio de nutrir nossos filhos - Laura gutman