Mostrando postagens com marcador relatos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador relatos. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Babywearing: praticidade e contato pele a pele




Não sei o que seria de mim sem babywearing. No primeiro filho era uma mão na roda, agora com dois filhos é praticamente o braço inteiro! Usei desde o primeiro dia de nascido dos dois e Cauã usou até cerca de um ano e meio, mas tem gente que usa mais tempo. Andar de transporte público fica incrivelmente mais fácil, especialmente se preciso colocar o mais velho no meu colo sentada. Além disso, descer com o cachorro e com uma criança andante se torna bem mais prático e fácil, garantindo, quase sempre, uma soneca da pequenina no colo deixando minhas mãos livres para segurar a mão do pequeno mais velho!


Existem diversos modelos e cada pessoa se adapta melhor a um tipo. Confira uma tabela com os modelos aqui. Eu particularmente amo o wrap sling para bebês mais novos, acho o modelo pouch super prático (mas me deixa com uma dor na coluna por não distribuir o peso) e mais recentemente descobri o ergobaby e confesso que tem sido um caso de amor. Achei mais prático e ele proporciona o mesmo ajuste respeitando a anatomia do bebê.

Pouch Sling Foto:babysteals.com
ergobaby.com
Wrap sling! 







O carregador de bebê deve proporcionar uma angulação correta dos joelhos em relação aos quadris, proporcionando maior conforto e respeitando a anatomia do bebê. Há quem diga que o babywearing auxilia inclusive o desenvolvimento da articulação fêmur-quadril. Observe a figura abaixo.

Aqui no Coletivo Maternar já falamos sobre o aspecto histórico do sling na humanidade.
Existem inúmeros benefícios do uso de babywearing para mãe e bebê, tais como os citados abaixo, dentre outros:
  • Auxílio na consolidação do vínculo cuidador-bebê;
  • Alívio de cólicas e choros;
  • Praticidade para a mãe;
  • Auxílio na produção do leite;
  • Proteção de fatores ambientais como barulho, luz, olhares curiosos...
Dentro do pano um mundo de sons e cheiros conhecidos deixam o bebê mais calmo. Pode ser que no início o bebê estranhe, mas basta balançar um pouco que o bebê se acalma e se acostuma trazendo memórias de dentro do útero. Olha como a Cecília, com quase 15 dias, ficava dentro do sling. Parecia que ainda estava dentro de mim! Uma delícia pra ela e pra mim! ;)


sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Relato de parto da Cecília e o renascimento de mim mesma

Dia 16 de junho eu completaria 37 semanas. Dia 15 comecei a sentir contrações doloridas de 10 em 10 minutos. Dei pulinhos de alegria, derramei algumas lágrimas de emoção e fui sentindo aquilo. Logo depois me vieram cenas do nascimento do Cauã na cabeça (mais no coração, talvez). Sabia que elas poderiam aparecer. Nós não tivemos uma experiência positiva no primeiro nascimento e eu sabia que o segundo nascimento poderia trazer memórias guardadas. Mas tinha me preparado ao longo da gestação para isso. Gestei bem algumas dores e pari elas ao longo da gestação da Cecília, porque sabia que memórias assim poderiam atrapalhar o parto. Enfim, abracei essas dores com toda a minha vontade a ponto de elas sumirem. Fazem parte da nossa história, afinal. Então avisei à minha equipe depois de algumas horas e fui tomar um banho quente como pediram. Tomei e as contrações sumiram. Brochei. Poxa, eram pródromos. Então fui pra rotina normal e fui dormir. Na madrugada as contrações apertaram, mas não ritmaram. Doíam pouco, agora sei. No dia seguinte tinha consulta de pré-natal (em casa) com minhas enfermeiras, a Ana e a Nath. A Ana me avaliou, avaliou Cecília, tudo bem. Contrações doloridas, que perdiam o ritmo. Pródromos. Era isso, era uma questão de tempo. Ah! O tempo. Sempre tivemos uma relação um tanto conturbada. Coisa de quem é ansiosa. Enfim, sabia que os pródromos poderiam durar alguns dias. Só não sabia que poderiam durar tantos dias. Dias de intenso aprendizado, cura e preparação. Oscilava entre “meu corpo sabe parir, é só esperar”, “será que tem alguma coisa errada?”, “acho que ela não tá pronta”, “Cecília sai logo daí cara, vamos nascer, quero parir”. Loucura total. Absoluta imersão no meu caos interno. Que viagem deliciosa, penso eu agora, já fortalecida (e fora do turbilhão). Pois bem, nesse período, logo no início, pedi pra doula vir, me ajudar, fizemos algumas medidas naturais para indução, chá, escalda-pés, massagem. Nada parecia funcionar. Claramente porque Cecília ainda não estava pronta. (E acho que nem eu). Ao longo dos 21 dias a única coisa que pensava era que não queria pressão social. Como sou espertinha e já passei por isso no primeiro filho, menti a dpp pra todo mundo. Sim família e amigos, menti. E sinceramente, todas as grávidas deveriam. Gestar é um processo social, além do individual, obviamente, mas as grávidas e seus bebês sofrem uma pressão sem fim que não necessitariam sofrer. Então, como minha primeira gestação chegou às 42 semanas e eu já estava quase mandando todo mundo pra putaquepariu (trocadilho besta hein), resolvemos mentir. Voltando à imersão dos 21 dias. Foram muito difíceis. Porque eu não me sentia a vontade para sair de casa, já que a cada contração dolorosa eu precisava parar um pouco e respirar fundo. As pessoas olham com certa preocupação para mulheres visivelmente a beira de parir e paradas respirando diferente. Então passei a maior parte do tempo em casa. Pra não surtar completamente, comecei a inventar pequenos projetos de artesanato. Lavar roupa. Dormir. Ler. Ver séries (o melhor passatempo EVER). Depois de 15 dias achando que a qualquer momento ia engrenar, comecei a ter certeza de que nunca mais seria uma pessoa não grávida. Juro que comecei a viver como se eu fosse ficar pra sempre naquela condição. Até que...

Até que meu companheiro me deu um empurrão num processo que eu precisava perceber: minha ansiedade estava me consumindo. Todo dia de manhã quando acordava e percebia que não tinha parido, passava o dia borocochô. Depois da dica fiquei mais atenta a lidar com sabedoria com o processo. Vez ou outra ia conversar mentalmente com as paridas do meu painel de inspiração. Ah a danada da espera. Entender que a qualquer momento o trabalho de parto poderia de fato começar me deixava super ansiosa para qualquer contração mais doída. Lembro que as contrações mais fortes eu falava em alto e bom tom: é isso aí, manda brasa! (hahaha amadora) Mas elas foram episódios isolados, pessoas solitárias em meio às contrações doloridas de verdade. As parteiras disseram pra mim: quando for trabalho de parto, você vai saber. (de fato eu realmente soube). Então galeuris fica a dica: pródromos longos? Depois de aproveitar pra descansar, vá fazer qualquer coisa pra pensar em outra coisa que não seja o parto. No meu caso, como eu tive MUITO tempo, eu usei a maior parte pra ficar sendo bipolar entre “a Cecília não tá pronta, quando estiver vai engrenar” para “vai Cecília nasce logo”. Até o momento em que eu me conectei comigo mesma, ouvi meus medos, me tranquilizei conversando francamente com minhas parteiras e decidi ir ao cinema, fazer outras coisas puramente com fins distrativos. Cerca de quatro dias antes do parto, fiz acupuntura e depois moxa. As contrações ficavam bem fortes e frequentes logo depois das aplicações, mas sem ritmo. E sumiam depois de um banho quente ou de deitar na cama. Na última semana eu consegui dormir todas as noites inteiras, as contrações simplesmente pararam de intensificar durante a madrugada, me deixando mais ainda com a sensação de que ia ficar pra sempre grávida. No domingo antes do parto fui a uma feira ao ar livre dar um rolé e foi ótimo. Encontrei pessoas, gargalhei, comi, admirei a beleza de Brasília e suas intervenções urbanas, além das naturais.

No dia seguinte, seis de julho. Pela manhã fomos ao parquinho com Cauã. Fizemos almoço. Estava vivendo a vida, o presente, finalmente. Já não sentia mais ansiedade como antes. Parava nas contrações dolorosas, fingindo admirar o céu, a árvore, quando estava na rua, pra evitar olhares curiosos ou preocupações desnecessárias de desconhecidos.  Depois do almoço fui cochilar com o mais velho, deitei ao lado dele, fiz carinho, adormeci. Algum tempo depois acordei com uma contração, senti algo fazendo ploc e levantei rapidamente quando a contração passou. E aí, eis que minha bolsa tinha estourado. Yes! Finalmente! Torcia para que as contrações começassem a se intensificar. Cauã dormiu tanto que achamos melhor não ir para a escola. A Ana veio me avaliar e estava tudo bem, pediu pra eu seguir a vida normalmente até que engatasse mesmo. Já pro final da tarde eu tinha tido episódios isolados de contrações bem mais dolorosas. Resolvemos sair para lanchar e ir ao mercado abastecer para o parto. Do lanche eu não consegui ir ao mercado. As contrações estavam espaçadas mas bastante doídas. Fui para casa, tomei um banho quente e fiquei torcendo para que as contrações não desaparecessem. E não desapareceram. Marido e filho chegaram, contrações estavam apertando. A cada uma, eu vocalizava continuamente, usando a técnica de respiração abdominal e abertura da boca para a abertura dos anéis do corpo. Mas infelizmente Cauã ficou incomodado com minhas vocalizações e achamos melhor pedir para que meus pais o levassem para a casa deles. Já tínhamos combinado isso previamente. Após a saída de Cauã, me soltei de verdade e pude me entregar ao processo sem preocupações. Avisei à doula e às parteiras que as contrações tinham se intensificado. A cada uma, eu vocalizava, usando a expiração de uma inspiração longa e vagarosa. Léo, meu companheiro, deixou as luzes indiretas, como eu queria. Ficou um pouco comigo. Fui pro chuveiro e as contrações ficavam mais intensas. Estava muito contente de ver meu corpo funcionando. As parteiras chegaram e foram organizar as coisas. Saí do chuveiro e fui pro quarto, sentei na banqueta de parto e pedi que meu marido ficasse atrás de mim. Passada a contração vi que tinha saído cocô, e não fiquei com vergonha. Não sabia como iria reagir a esse momento e poucos relatos falam do cocô. Pois é, tamanha força e compressão do reto, sai cocô. Pouco. Nada demais. Enfim, estava doendo pra caralho. Muito mesmo. Eu vivia um duelo porque sabia que tinha que apagar meu neocortex pra coisa rolar mais naturalmente. Mas se eu estava pensando em apagar o neocortex provavelmente eu não tinha apagado, pensava eu. E aí a Ana perguntou se eu queria a piscina. Eu perguntei se dava tempo. Elas disseram que talvez fosse interessante fazer um toque para avaliar em que patamar estávamos. 20h: Nath veio, avaliou. Não falou nada e saiu. Nessa hora já imaginei que deveria estar desfavorável, com colo grosso e pouca dilatação. Ela foi sábia pra caramba de não ter me dito. E eu não perguntei porque não queria brochar ou duvidar do meu processo. Tamanha sensibilidade minhas parteiras tinham. Sabiam que minha ansiedade poderia atrapalhar e souberam lidar com isso e comigo de uma maneira ímpar. Sou muito grata à maneira que tudo foi conduzido. Após perceber que o processo poderia demorar, de ver a movimentação pra montar a piscina e tal, resolvi esperar no chuveiro, relaxando, vocalizando agachando, me entregando. Deixei uma luz de led na tomada, liguei o chuveiro no mais quente possível e fiquei lá por um tempo. A cada contração soltava: aaaaaaaaaaaaaaaaaaa. Tipo aquela daquele post que fiz sobre o canto carnático. Lembrei muitas vezes daquela indiana que conduziu as mulheres no canto. Do som da água do vídeo. Do vídeo do parto da bailarina vocalizando também. Aí minha doula chegou! Ufa! Elisa chegou e perguntou prontamente o que eu precisava. Eu disse que estava muito frio. Veja, o banheiro tem uma janela quebrada que sempre me irrita porque deixa passar um ventinho frio assim que saímos dentro do box do banho quente. E eu estava com a porta do box aberta. Então... Elisa convocou Léo e elaboraram uma engenhoca pro vento parar de me incomodar. Colocaram alguns sacos plásticos na janela com fita crepe e funcionou muito bem. Tão bem que eu podia ver a fumaça do banheiro contra a luz led da tomada. E a partir daí a imersão foi belíssima.

Sentia as dores da contração. Doíam muito. Perguntava pela banheira, mas não estava pronta. Sentia meu corpo se abrindo. Contração vem, vocalização, respiração. Contração vai, procurava relaxar os outros músculos do corpo: cervical, face, mãos e braços. Contração vem: vocalização, respiração. Contração vai: lembrar de apagar o neocortex. Contração vem: vocalização, respiração. Contração vai: eu tenho que parar de pensar em apagar o neocortex e me entregar. Contração vem: vocalização, respiração. Contração vai: ah que delícia as massagens da doula. Contração vem: nossa isso tá doendo pra caralho, acho que vou sair do chuveiro. Contração vai: vamos pra cama, tô morta, preciso descansar! Elisa vai comigo pra cama. Deito de lado e simplesmente as contrações parecem não parar. Não dá pra descansar. Fico gritando pra Elisa apertar meu quadril. Usou toda a força e aliviava bem. Uma hora ela estava praticamente em cima de mim de tanta força que eu pedia. Mas aliviava mesmo. Deitada foi horrível, doeu mais. Não deu pra descansar. Pedi pra voltar pro chuveiro, porque a piscina não estava pronta. Voltei pro chuveiro. Durante as contrações comecei a perceber a analogia das ondas do mar. Perfeito. Vem e vai, vem e vai. Mas chegou um momento em que começaram a ficar quase insuportáveis. E aí... aí eu disse aquela frase CLÁSSICA de quem está perto de parir: EU ACHO QUE VOU MORRER. E depois de vomitar, fazer cocô (não sei se eu realmente fiz) e gritar isso, imediatamente depois, eu pensei: putz, tá perto mesmo! Elisa disse logo depois: Que bom! Tá pertinho! Você consegue! E aí a Nath veio perguntar se eu queria agulhamento. A Ana, a outra enfermeira, tem um curso e usa uma técnica de agulhamento a seco no parto para alívio da dor. Eu nem esperei a Nath terminar de falar. Ouvi agulhamento e disse EU QUERO! Ok. Ana vem, com toda sua sabedoria, falando baixinho. Senta na frente do box. Não sei que magia a voz da Ana tem, mas fiquei instantaneamente mais centrada só com o tom da voz dela. Estava em uma contração, perdendo as estribeiras, querendo partir pro caos ao invés da entrega harmoniosa e lembro da Ana: respira Gabi, devagar, já já passa. Se eu pudesse eu gravava o jeito que ela falava. Era quase uma hipnose. Automaticamente a contração passava a ser suportável, eu voltava a vocalizar, a vibrar os lábios pra auxiliar a mucosa a relaxar, a rebolar. Entre uma contração e outra, consegui sentar na banqueta de parto e ela aplicou. Fiquei 15 minutos com as agulhas. Com 3 minutos veio outra contração, mas já senti uma melhora da intensidade, muito mais suportável. A Ana tirou as agulhas, Elisa voltou, e eu fiquei lá, em imersão em mim mesma. Quando eu pensava em titubear pensando no toque que eu sabia que não tinha grande dilatação eu lembrava rapidamente da lei do esfíncter, e isso me tranquilizava muito. Sabia que abrindo a boca ajudava a abrir o colo do útero, vibrando o lábio relaxava a mucosa e o períneo e usei e abusei dessas técnicas. Então comecei a sentir puxos. Puxo é quando dá vontade de fazer força. Depois do primeiro, avisei a Elisa: Elisa estou tendo puxos! Ela saiu e foi chamar a Ana. Ana veio. Perguntou se eu conseguia sentar para ela me avaliar. Eu sentei, de costas pra ela, porque a banqueta estava virada de costas pra saída do box, que é um quadrado que só cabia eu. Enfim, Ana pediu pra eu virar e eu já na minha versão bicho disse que não, que ela ia ter que me avaliar assim mesmo. E aí ela avaliou, fez um contorcionismo danado, fez um toque e pediu pra que eu tocasse. Toquei e pude sentir a cabeça de Cecília no canal de parto. Foi uma sensação incrível. Então pedi ajuda, viramos a banqueta e eu. Ana sentou, colocou sua luz de escavador na testa (hahaha) e eu apoiei o pé esquerdo no joelho dela. Segurei no suporte da parede com uma mão e com a outra segurei na barra da porta do box (que não sei como não quebrou). JURO que o expulsivo não doeu. Durante uma contração e outra do expulsivo eu tive a sensação nítida de estar em cima da prancha no mar, esperando a próxima onda. Com a mesma calmaria, com a mesma paz, com a mesma plenitude e sintonia com a natureza. Vibrei lábios entre as contrações. Abri ao máximo a boca e vocalizei durante as contrações. No segundo puxo eu queria um pouco perder o eixo, mas aquele olhar de paz da Ana, nunca vou esquecer. Nunca vou esquecer aquele momento. Eu olhava pra ela e era como se eu me visse dizendo: tá tudo bem. Sentia uma confiança absurda de que realmente tudo sairia bem e sentia uma tranquilidade incrível. A Ana dizia: deixa ela descer Gabi, só faz força quando tiver vontade. E eu esperava o sinal do meu corpo de que a força estava vindo. Uma força que eu não reconhecia. Não sabia que tinha. Não era uma força só de colocar um filho para fora do meu corpo. Mas uma força criadora. Uma força criativa. Empoderadora. Fortalecedora. No expulsivo, entre uma contração e outra, era como se tivera chegado num lugar em que nunca estivera. Com uma vista incrível. Tudo ficou claro. A vida, seu propósito e sua beleza. Ali, naqueles poucos segundos entre uma contração e outra eu me reencontrava. Quando ela saiu e escorregou para as mãos da Ana, que logo me entregou, às 23:15, eu atingi meu Samadhi. Minha ascenção espiritual. Falei: EU CONSEGUI. Eu realmente consegui. Todos choraram e pedi para que Léo viesse ficar com a gente no box do chuveiro. Foi incrível.

No meu gestar e parir me encontrei em mim. Percorri lugares nunca percorridos, encontrei dores escondidas, fortalezas esquecidas e vivi o presente como nunca houvera vivido. Senti-me entorpecida de amor, de esperança e de paz. Fez-se luz nas minhas vistas, no meu coração e na minha mente e agora sou outro alguém.  

Muito mais plena.

Gratidão ao meu grande amor Léo, às parteiras mais especiais que eu poderia ter arrumado Ana e Nath e à inspiradora doula Elisa.
Sou grata pela sensibilidade, pela voz baixa e afetuosa, pelo cuidado holístico e olhar de quem acredita.

*Minhas parteiras são da Périnatale.


OBS: Esse parto foi um vbac. Períneo íntegro, trabalho de parto com cerca de 3 horas.  
Hora de ouro! Mamando no calor da mamãe na primeira hora de vida!

Foto com a equipe da Perinatale com as enfermeiras obstetras Ana Moulaz e
Nathália Paiva  e a doula Elisa! Comemorando o períneo íntegro!


quarta-feira, 10 de junho de 2015

Tudo de novo! Fraldas de pano crescendo com a família...

E cá estou eu, novamente encantada e louca pelas fraldas de pano. Nesses quase três anos que se passaram, aprendi algumas coisas interessantes que compartilharei com vocês hoje. Não vou trazer informações básicas, porque elas estão nesse post aqui.
Enfim, Cecília vem aí e devo dizer que aproveitaria todas as fraldas que guardei do Cauã. Tirando uma, de algodão, que ele usou muito e que está bastante desgastada. Mas o que pude observar, já de antemão, é que as fraldas em soft, minky, pul e suede, estão como novas. Mas não vou adquirir fraldas novas em soft porque achei que abafavam muito e às vezes davam alergia. Sugiro que o interior seja de tecidos mais leves como o dryfit, minky ou suedine.
O custo benefício realmente tem sido incrível: separei as que mais gostava e simplesmente troquei/vendi as outras. Os recheios mantive todos os que já tinha, tirando as fraldas tipo cremer, que comprei novas para ela, além de adquirir algumas coisas que serão úteis e que eu não sabia.

Na minha opinião, eu não gastaria com absorventes para o dia. Eu sei costurar e acabou achei mais prático comprar o atoalhado de qualidade (que custa cerca de R$20/metro) e costurar duas faces dele uma junto à outra, na medida que achei ideal (44x30), que foi do absorvente da Fralda Madrinha. Cortei vários, juntei e costurei com o acabamento. Esse tamanho eu achei ótimo porque dá pra dobrar em três ou até quatro camadas, e fica bem reforçado. Para a noite eu realmente não consegui achar uma combinação que segurasse a noite toda, e acabei optando por usar a descartável de noite já que ele dormia a noite toda e eu também desejava dormir. 

Outra coisa que resolvi fazer, foram meus próprios paninhos de limpeza. Ao invés de costurar dois do atoalhado, simplesmente cortei na medida dos paninho normais descartáveis e pedi para fazer a bainha na overlock. Depois é só juntar tudo com as outras fraldas e lavar. Não precisa passar. Esses do lado dos que eu fiz são da Chiquita Bakana e de um lado são de soft e do outro de algodão. Não gostei muito deles para limpar bumbum, prefiro o atoalhado mesmo.

Ainda falando sobre os absorventes, além do atoalhado, essa combinação da cremer com o recheio de microfibra dentro foram a combinação mais mão na roda que eu pude fazer. Além de segurar legal o xixi por umas 4h, secavam super rápido e não impermeabilizavam com a facilidade que os outros absorventes impermeabilizam (excesso de sabão ou uso de amaciante acabam com a absorção das fraldas). Na caixinha da fralda de pano vem a explicação diferenciando a dobradura para meninos e meninas. Sugiro que observem somente a qualidade do tecido, pois alguns podem durar bem menos e aí custo benefício pro bolso e pro planeta devem ser levados em consideração. As de maior qualidade geralmente são um pouco mais caras, mas tem uma vida útil maior.
Ah! Quando falo em microfibra, não necessariamente são os absorventes prontos que acompanham algumas fraldas não. Bom, não só eles. Mas sabe aqueles panos de limpeza em microfibra? Pois é, esses eram o que eu mais usava, junto com a cremer. Como a microfibra não pode ir em contato com a pele, eu ou fazia a dobradura abaixo, ou simplesmente enrolava a cremer em volta da microfibra formando um retângulo. O poder de absorção é muito bom.
Com Cauã eu tive muita dificuldade em usar as fraldas de pano no primeiro mês porque ele tinha as pernas finas e eu não tinha comprado nenhuma fralda especialmente para recém-nascidos. Como pretendo usar com a Cecília, dei uma pesquisada e comprei esses contours (ou contornos) da Fio da Terra, porque achei que os elásticos devem segurar bem, e eles podem ser usados mesmo depois, porque você dobra e prende com o snappi do tamanho que quiser. Eu já tinha comprado um da Ninho Coruja, mas eles não tem elástico, apesar de terem excelente absorção, eu achei que para recém-nascido (com possibilidade de pernas finas) não deve segurar. Mas ainda vou testar quando ela nascer. Com Cauã eu usava esse contorno da Ninho Coruja com um absorvente a mais de microfibra pra de noite. Só achava que ficava muito volume...


Outra coisa legal que eu só fui descobrir a praticidade depois, foi o uso do liner biodegradável. Quando o cocô do Cauã começou a ficar de gente grande, achei mais fácil colocar o liner por cima do recheio e jogar tudo no vaso depois. 
Entre os modelos também, eu achei as pockets pouco práticas, porque eu tinha que trocar tudo, quando poderia só trocar o recheio. Então agora prefiro capas.

Para saídas eu acho ótimo usar a fronha de soft da Fralda Madrinha com absorvente por dentro, porque dá a sensação de seco e também porque é mais fácil de levar na bolsa. Eu realmente não tenho muita disposição em usar fraldas de pano em saídas, porque gosto de carregar pouca coisa, e as fraldas de pano fazem certo volume na bolsa.

Além das marcas que eu citei, já me indicaram outras com uma propaganda muito positiva como a Nós e o Davi. Eu particularmente prefiro comprar produtos de mães artesãs, para incentivar o empreendedorismo materno e o trabalho artesanal. A Coolababy e outras chinesinhas são mais baratas, mas acho que vale separar uma parte do enxoval só pras artesanais. Comprar de quem faz é sempre uma boa opção!

No próximo post vou dar dicas de lavagem!
Qualquer dúvida, estou a disposição para ajudar! 
Beijocas


quarta-feira, 6 de maio de 2015

Quanto vale o nosso parto


Algumas pessoas tem dificuldade para compreender porque tenho me dedicado tanto para pagar uma equipe humanizada para o meu parto se tenho plano de saúde privado e o SUS. A seguir você encontra os principais motivos que me levaram a empreender toda minha energia para conseguir pagar minha equipe e espero que esse texto fique de motivação para quem acha que não pode ter um parto humanizado porque não tem dinheiro.

O contexto
Nós estávamos desempregados, em meio à concretização de um planejamento de seis meses de mudança de cidade, no qual sabíamos que teríamos privações materiais. Diferentemente da primeira gravidez, a qual foi bastante planejada e esperada por sete meses, essa gravidez aconteceu por um descuido. Então, nossas reservas já tinham sido planejadas para serem utilizadas para nossa mudança. Um parto não caberia no que tínhamos planejado... Como tínhamos tido uma experiência ruim no primeiro nascimento, correr o risco de passar por tudo de novo era inaceitável. A gente estava com os dois pés fora da matrix. Parir no convênio não era uma opção. No SUS uma possibilidade.

A realidade da assistência privada
Ter um plano de saúde e querer parir não são coisas que podem ser somadas no Brasil. Na verdade, a rede privada tem umíndice de cesarianas de 83%, chegando a muito perto de 98% em algumasmaternidades. Funciona mais ou menos assim:
            Opção 1: ou você encontra um obstetra que de cara vai marcar sua cesárea, a conhecida cesárea eletiva. Talvez até digam que parto normal não existe mais, que as mulheres não precisam passar mais por isso (oh god).  São os obstetras cesaristas. Falam na cara que não acompanham parto normal (humanizado então, nem se fala).
            Opção 2.2: ou você encontra um obstetra fofinho. Aquele que vai te dizer que acompanha parto normal SE tudo der certo. Mas ao longo do pré-natal (aquele que você vai esperar 3 horas pra uma consulta de 10 minutos) ele vai conseguir minar sua coragem ou até mesmo encontrar mil motivos médicos (que não são baseados em evidências científicas, como circular de cordão, bebê pélvico, não ter passagem entre outros mitos) pra marcar a cesariana ou mesmo fazer o procedimento assim que você der o primeiro sinal de trabalho de parto.
            Opção 2.2: pode ser que você chegue parindo, com o bebê coroando. Esse obstetra “fofinho” não sabe acompanhar um parto fisiológico e muito provavelmente vai correr pra fazer uma episiotomia ou colocar um sorinho ou qualquer intervenção de rotina desnecessária sem nem perguntar a você nada.
            Opção 3: ou o médico do plantão. É importante dizer que chegar em trabalho de parto é visto de maneira muito esquisita pela maioria dos plantonistas. Obviamente eles querem logo passar o caso pro obstetra que acompanha o caso. Ou “acabar logo com tudo isso” pra não passar o plantão com trabalho pro outro plantonista. A gestante parece uma espécie de batata quente e o parto um evento que precisa ser terminado logo e aí... dá-lhe intervenções. Prestar uma assistência padrão ouro, discutindo condutas e respeitando autonomia e protagonismo feminino é bastante difícil pela rotina que o hospital segue e pela própria formação dos profissionais da assistência que lá estão.

Pode até ser que você conheça alguém que chegou parindo e que conseguiu um parto natural no hospital do convênio. Essa mulher é bastante sortuda, ou seja, correu um risco significativo de ter uma experiência de parto negativa.

Mas além de se preocupar com o parto em si, é importante também saber das intervenções no recém-nascido, que, na assistência hospitalar de rotina ainda são bastante invasivas.
Enfim, todas essas opções me parecem bastante ruins. E hoje, compreendendo o funcionamento dessa indústria milionária, eu não me submeteria nem ao pré-natal e nem à assistência ao parto com um médico do convênio. Simplesmente não compactuo com esse modelo. Apesar de ter plano de saúde privado, tenho utilizado apenas para fazer exames solicitados pela minha equipe. E me privado de muitos incômodos como esperar horas para ser atendida para uma consulta ridiculamente curta, sem olho no olho. Esse sistema faliu e eu não compactuo com ele. Ele é violento pra todo mundo. Enquanto nós mulheres não criarmos novas demandas, enquanto os profissionais não se organizarem para melhores condições de trabalho, enquanto a questão for tão mercadológica e egóica, acredito que a mudança vá ser bem morosa.
Pré-natal humanizado, com participação da família e atenção integral gestante

A realidade da assistência pública

Eu sou apaixonada pelo projeto do SUS. E até tentei fazer o pré-natal por ele quando cheguei a Brasília. Mas o caos estava instalado, profissionais em greve e muitos outros problemas decorrentes de uma má gestão. Na primeira gestação eu fiz pelo SUS em Parnamirim (RN) e gostei bastante. As enfermeiras eram super atenciosas, apesar das palestras serem bem ruins e tratarem as gestantes de maneira infantilizada, o que também constatei aqui em Brasília. Como a qualidade do pré-natal no posto de saúde estava bem ruim, resolvi incluir no pacote da minha equipe.

Apesar de ter um índice menor de cesarianas, cerca de 40%, o parto com intervenções ainda é a realidade da assistência ao parto no SUS. Isso significa que mesmo não caindo numa cesariana mal indicada (de acordo com as evidências científicas), eu entraria na escala de produção do parto normal que consiste num pacote de intervenções que comprovadamente tem um impacto negativo no desenvolvimento do parto fisiológico e que são inclusive contra p que preconiza a Organização Mundial da Saúde tais como: uso de ocitocina de rotina, episiotomia (ainda mais sem o consentimento da gestante), limitação da escolha da posição para parir (a imensa maioria dos obstetras dos hospitais públicos colocam a mulher naquela velha posição de litotomia com a barriga pra cima, pernas naqueles apoios (muitas vezes amarradas), entre outras condutas de terrorismo psicológico e outras cositas más que são conhecidas também como violência obstétrica.

Saindo do modelo de assistência hospitalar, eu teria a opção de uma casa de parto, se não fosse minha cesárea anterior. No protocolo de assistência na Casa de Parto de São Sebastião (DF), não são acompanhados partos vaginais de mulheres com cesariana prévia. Apesar de já existirem estudos recentes mostrando que o índice de ruptura uterina não é significativamente maior em partos vaginais após cesarianas. Enfim, na Casa de Parto tenho certeza que conseguiria uma assistência humanizada e minha autonomia respeitada. Mas já não era uma opção... então me restou o hospital de referência. Que eu teria que parir com quem tivesse de plantão. Só que a dinâmica de um hospital é muito diferente do de uma casa de parto. É um risco muito grande que eu decidi não assumir como plano A. Mas definitivamente é meu plano B. No SUS, com as portarias do Ministério da Saúde e outros fatores (como o funcionamento real de uma ouvidoria) eu me sinto bem mais acolhida e com uma possibilidade maior de conseguir um parto sem intervenção principalmente se mostrar que conheço meus direitos. Infelizmente, essa é uma realidade que já escutei e presenciei inúmeras vezes: acompanhantes e mulheres informados dos seus direitos, que chegam com plano de parto e doula são tratados com um cuidado maior, infelizmente pelos motivos errados medodeserprocessado. Fico mais tranquila até em relação aos procedimentos com o bebê, já que as novas portarias regulamentadoras vão de acordo com o que a humanização do parto preconiza: pele a pele imediatamente, amamentação na primeira hora, alojamento conjunto, clampeamento tardio do cordão umbilical. Na minha experiência percebo um maior respeito a isso quando o profissional percebe que a mulher é informada e discute a conduta.

O panorama do Brasil: a violência obstétrica

Desde que ressignifiquei a experiência negativa com o primeiro nascimento, me tornei uma ativista mais forte e mais compreendida acerca do contexto em que fui violentada e que 25% das mulheres brasileiras relatam ser.

Um quarto das mulheres brasileiras relatam terem sofrido algum tipo de violência durante seus partos. E tenho certeza que esse número é muito maior, porque muitas mulheres não compreendem que foram violentadas, já acostumadas a um modelo de assistência tão violento e a serem tão submissas. A imensa maioria delas apenas guarda um sentimento negativo em relação ao parto. Sentimentos que geralmente são passados para as próximas gerações ao dizer que hoje em dia a mulher não precisa sofrer, que parto dói muito entre outras coisas que estão em nossa memória coletiva de uma maneira muito forte e que não fortalece as mulheres, apenas perpetua um modelo de submissão e de sofrimento em relação ao parto e ao nascimento.

Já aconteceram inúmeras vezes: eu começar a falar sobre violência obstétrica e alguma mulher começar a chorar por se reconhecer nos sentimentos ou relatos que escuta. Inúmeras vezes. Ou por falar em episiotomia e mutilação feminina e muitas começarem a perceber que se sentiram assim e pensarem que era assim mesmo, que a dor pra sentar, pra ter relação sexual era algo normal. E em todas ficarem absolutamente maravilhadas como um parto pode ser bonito, ainda que dolorido. Em como a dor das contrações pode ser ressignificada. Em como é possível até mesmo ter orgasmos durante o parto. A maravilha é perceber outra possibilidade, muito mais bela e simples, bem ali.

Onde eu puder minimizar os riscos de passar por violência obstétrica novamente, eu o farei. Lutando contra um sistema posto, contra achismos de todos ao redor, por um parto digno e respeitoso.

O valor de um parto

Para mim não importa quanto fosse. Conversei com algumas equipes humanizadas, com doulas e fiz minha escolha. Muito mais baseada em empatia do que em valores. Expliquei explicitamente para todas envolvidas a situação da gravidez, a dificuldade financeira de não ter uma reserva que pudesse ser usada para isso naquela hora, mas deixei bem claro que faria tudo que estivesse ao meu alcance para conseguir. E a equipe foi super parceira em facilitar o máximo possível as condições de pagamento.

E tenho feito.

Economizamos bastante, deixamos de fazer muitas coisas, buscamos alternativas mais baratas, vibrei abundância em todas as minhas meditações, percebi o que poderia oferecer para trocar com as pessoas por dinheiro para ajudar a pagar minha equipe. Nesse processo está sendo fundamental o apoio das amigas e da família e da virtualidade. Tem sido uma construção coletiva muito bonita e sou pura gratidão a todas as pessoas que tem nos ajudado. No próximo post vou detalhar exatamente o plano que tracei para conseguir o dinheiro pro meu parto, do zero.

O valor de um parto pra mim não é um valor plástico, material. É um investimento: pra mim, pra minha família e pro mundo. Acredito de verdade que podemos mudar uma sociedade deixando imprints de amor e de acolhimento em quem chega ao invés de frio e solidão. Força de vontade, fé de que vai dar certo e movimento para fazer as coisas acontecerem são coisas muito importantes para viabilizar algo assim.Contar com amigos e família também é essencial. Ter conseguido quase a metade do valor total até agora já me mostra mais uma vez que juntos somos bem mais fortes! E que nada é impossível, por mais que pareça difícil.



terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

O nosso desmame gradual

Essa é a história de um desmame do Cauã, minha e do Léo, meu companheiro.

Foi bastante difícil tomar a decisão de desmamar Cauã. Bastante difícil mesmo. Tão difícil para mim que levou cerca de três meses para que eu batesse o martelo e começasse de fato a tentar aplicar alguns métodos que já tinha estudado e a conversar com ele sobre esse processo. Parte disso se deu pela longa batalha egóica interior de ser “menas” mãe, de não estar dando meu melhor e all that crap que todas as mães sabem. Apesar de realmente não achar que estamos numa competição, na maternidade a competição parece ser a superação de seus limites, que são cada vez mais ultrapassados de forma absolutamente incríveis. Enfim, demorou um tempo pra eu assumir que realmente não estava mais rolando uma amamentação prazerosa pra mim. Meu companheiro já tinha me dado uns toques de que eu estava exausta, que revirava os olhos quando Cauã pedia o peito e que de noite, principalmente, eu ficava bastante incomodada e de mau humor.

Veja, eu sou ativista da maternidade ativa, da humanização do parto, da amamentação prolongada e simplesmente sou fascinada pela teoria da Laura Gutman. Nesse período de aceitação eu lidei e me livrei de muitas imagens do que era ser mãe e de outros aspectos que poderiam estar interferindo na minha disponibilidade em amamentar. Mas quando aceitei que não tinha mais disponibilidade emocional (talvez um pouco de física ainda) em amamentar, foi bastante importante e um tanto libertador. Eu sempre tive na minha imagem mental de ser mãe do Cauã de fazer um desmame natural, de amamentar até quando ele quisesse, afinal eu sabia dos benefícios para ele e para mim. Tive que desconstruir e me permitir me desapegar dessas imagens mentais às quais eu mesma tinha me prendido.

O desmame do Cauã talvez tenha sido tão importante para mim enquanto mãe porque foi o meu desmame de padrões antigos de pensamento e de apego. Pra tomar essa decisão eu precisei me deixar reconstruir minha imagem para mim mesma e a respeitar e aceitar meus limites.

Enfim, decisão tomada, companheiro a postos pro que desse e viesse. Então, começamos o processo. Cauã dorme com a gente desde sempre. Somos adeptos da cama compartilhada. E algo que foi realmente o grande agravador do desmame noturno, principalmente, foi o fato de ele sempre ter dormido mamando. Ele não conhecia outra maneira de dormir a noite. Éramos sempre eu e ele, deitados, e ele mamava até dormir e soltar o peito. Durante a noite eu deixava o peito disponível para ele pegar quando quisesse. Até certo ponto de idade isso foi bastante cômodo, porque minha qualidade de vida com um sono contínuo era outra. Eu nem lembrava quantas vezes ele mamava e não acordava para amamentar. Para mim fazer isso foi glamour total. Só que, tudo ia muito bem até que com cerca de 1 ano e 6 meses eu comecei a ter bem menos leite e a acordar bastante com as mamadas, porque elas não tinham interrupção. Eu ia mudar de posição e era simplesmente impossível, porque se eu tirasse o peito ele acordava e se eu deixasse eu não dormia. Eu pensava que podia ser pico de crescimento, que passaria logo, mas os meses foram passando e a chupeitação não. Ele sempre foi um bebê high need. Tanto que uma das poucas consolações que tive diante de tanta entrega que foi ter um bebê high need na amamentação exclusiva foi me deparar com esse termo no grupo Soluções para noites sem choro.

Passo inicial: avisar a ele que eu estava cansada e que começaríamos a mamar cada vez menos até parar de mamar. Falei que existiam outras maneiras de dormir, que não precisava ser no peito e que seriam igualmente boas.

Tentativa inicial: tentei fazer a remoção gentil. Ele mamaria e quando estivesse relaxado, eu tiraria o peito e ficaria lá, imóvel, acalentando o choro. Caso o choro ficasse demais, eu devolveria o peito. Esse método foi simplesmente impossível para nós dois. Ele sempre chorava demais.

Tentativa inicial modificada: tentamos mudar de estratégia e adaptar a remoção gentil. Se o problema era ele associar a mamada com o adormecer, então eu o amamentaria sentada em uma cadeira e quando ele estivesse relaxado, eu retirava do peito e tentava ninar na cama sem o peito. Não deu certo de novo. O choro era pra lá de sentido.

Tentativa inicial modificada 2:  e se eu amamentasse sentada, e quando ele relaxasse, meu marido colocasse pra dormir? Não deu certo de novo.

Tentativa diferente da inicial 1: talvez se eu ficar longe e o marido tentar colocar para dormir. Essa foi a menos certo de todas, o choro era tão alto e meu coração ficava tão aflito que era impossível para todos.

Tentativa diferente da inicial 2: tentei me desapegar dos métodos e passei a amamentar para dormir e depois eu amarrava uma faixa no peito, colocava uma blusa com uma gola mais fechada que dificultasse o acesso durante a madrugada. Quando ele acordava procurando o peito eu dizia que o “mamá estava dormindo”. Ele chorou um tantão as primeiras vezes, mas bem menos do que as tentativas anteriores. Meu marido aproveitou para ninar ele algumas vezes durante as acordadas de madrugada e acabamos descobrindo que ele sentia fome se não tivesse um jantar reforçado.

Tentativa final (YES!): Quando ele acordava a gente esfregava as costas, cantava uma música de dormir, dizia que ele estava seguro e que estava na hora de dormir. Nesse processo ele ainda continuava mamando para dormir, mas durante a noite não mamava mais, porque eu dificultava o acesso ao peito. Também percebemos que com o estabelecimento fixo do horário de um jantar reforçado, ele dormia melhor e acordava menos vezes. Mas passamos a dormir com uma banana ao lado da cama, just in case ele acordasse de madrugada a gente não precisasse sair da cama para fazer alguma coisa. Com algumas semanas ele percebeu que poderia dormir de outra forma e eu passei a usar a camisa na hora de dormir também. Explicava para ele que o mamá já tinha dormido e que ele poderia dormir sem o mamá. Ele choramingava, mas era mais de reivindicação do que de sofrimento mesmo, o que me consolava um pouco. Não fiz um desmame para o dia, o desmame diurno aconteceu concomitante, mesmo sem eu perceber. Ele passou a pedir cada vez menos.

E eu me senti muito bem de ter respeitado meus limites.

Durante o processo do desmame eu fiz um cartaz para que eu lesse toda vez que queria chorar com ele e desistir de tudo para que eu lembrasse da importância da consistência para o sucesso do desmame. No cartaz só estava escrito: consistência. Sempre que eu começava a pensar em dar o peito de madrugada e colocar todo o processo construído por água abaixo eu ia lá dar uma olhada. Às vezes nem lembrava do que tava escrito, mas sabia que tinha que ir lá ler.

Enfim, foi isso que funcionou pra gente. Acredito que não exista fórmula universal, que devemos seguir nossa intuição materna e que ter alguém para ajudar nessas horas e ter privacidade é essencial para o sucesso do processo gradual. Várias vezes que ele dormiu mamando ou quando estava desmamando eu me sentia esquisita e precisava de alguém para conversar. O processo todo demorou cerca de 3 a 5 meses.

Uma semana depois que estávamos completamente desmamados eu descobri que estava grávida de novo. E lá vem por aí mais uma história de amamentação daqui uns meses...


Espero ter ajudado. Encontrei poucos relatos na internet na época do nosso desmame. 

Beijos e luz


quarta-feira, 16 de julho de 2014

Violência obstétrica não é drama, é realidade.

Sabe, uma das coisas que mais me feriu depois que publiquei meu relato nas redes, foi o fato de uma pessoa muito próxima a mim dizer que eu estava fazendo drama. Que meu filho tinha nascido bem e era isso que importava. Isso me doeu profundamente. Quando uma pessoa expõe seus sentimentos e a outra os menospreza é uma falta de humanidade, de compaixão, de amor e de respeito ao próximo. E sim, meu filho estava bem. Mas uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. Meu bebê estava bem, mas eu não estava. Ter com quem contar fez toda a diferença pra mim.

Algumas pessoas se mostraram desinformadas e duvidosas sobre o relato da Maria* e da versão do médico Iaperi Araújo. Outras acham puro drama. Muitos alguéns disseram por aí: Eu não acredito que Iaperi tenha feito isso, ele é referência na universidade (o professor tem dedicação exclusiva na UFRN, apesar de ter atendido a paciente em um hospital particular de Natal). 

Pra vocês que pensam assim eu tenho algumas coisas pra falar. Você pode continuar na sua bolha de desinformação ou pode ler e procurar se posicionar de maneira mais consciente sobre o que aconteceu. As pessoas tem lados bons, mas tem lados bem ruins também. E geralmente eles se mostram quando a pessoa tem um poder legitimado. Seja quando ela está em casa e agride a família, seja quando está num hospital e agride uma mulher, como foi o caso.

Sobre a veracidade da história: fatos são fatos
O médico obstetra Iaperi Araújo publicou em seu perfil um desabafo antiético expondo o caso de uma paciente que era chamada pejorativamente de surtada e comedora de placenta. A história contada por ele parecia surreal demais pra ser verdade. Quando vi pensei: tenho certeza que essa mulher foi violentada. Espero que ela consiga justiça e que não fique calada.

Dias depois eu recebi a ligação de uma mulher muito abalada, dizia que queria conversar comigo porque achava que tinha sido vítima de violência obstétrica. Falou mais ou menos aos prantos o que acontecera e combinamos de ir até sua casa para conversarmos pessoalmente e para que eu pudesse dar as orientações possíveis. Não sabia que estaria diante do relato mais sofrido de violência obstétrica da minha vida até agora.

Faz cerca de dois anos somente que venho recebendo diversos relatos de violência obstétrica em nosso estado, em nome do Movimento pela Humanização do Parto e Nascimento. Esse foi sem sombra de dúvida o mais impactante.

Ela e a família começaram a me contar e entre pausas e questionamentos ficou nítido o quanto o caso tinha abalado a todos. Em diversos momentos do relato me segurei para não chorar e conseguir dar o apoio que julgava necessário. Dei as orientações cabíveis, expliquei a ela a necessidade de escrever um relato, tanto para expor sua versão, quanto para seu próprio processo de cura. Manteríamos contato dali em diante e ela poderia contar comigo.

Entrei no carro e chorei bastante. Fico sempre muito tocada com os relatos das mulheres, mas esse... era carregado de tanta violação, de tanto machismo, de tanta omissão de todos que ali estavam e que nada fizeram, de tanta falta de apoio de quem poderia ajudar... Estou desde então sem dormir direito, inquieta. Fico pensando se consigo lidar com tudo isso. As pessoas ao meu redor dizem que tenho que saber diferenciar o que é meu e o que não é, mas pra mim eu e ela estamos conectadas. Assim como todos nós estamos. E eu preciso encontrar uma maneira de mudar isso. Lembro claramente do momento em que decidir criar o Movimento, quando estava lá embaixo numa depressão e quando ainda escutava que a Promater tinha proibido a entrada de doulas depois de alguns partos naturais lindos. Busquei força no meu filho. E em outras mulheres. E lembro de uma frase que me motivou:

Quando eu me curo
Eu curo a outra

Eu ia lutar todos os dias para que nenhuma mulher precisasse passar pelo que passei. E foi isso que me motivou a me fortalecer novamente. Precisava encontrar meu eixo para seguir na luta.

Entrei em contato com as ativistas mais engajadas, com toda a blogosfera materna, com alguns blogs feministas. Contei o caso. Falei do relato, mas não o tinha em mãos. Torcia para que ela escrevesse, mas sabia do quanto escrever sobre o fato era um desafio emocional. Muitas mulheres me procuram, desabafam. Mas poucas conseguem seguir adiante para lidar com isso. Mas ela não. No dia combinado eu recebia o relato virtualmente. Rapidamente o repassei a quem poderia interessar. E então se formava a grande rede de apoio¹.

Então eu sou testemunha de que o que aconteceu aconteceu. Eu mais três ativistas que estão envolvidas com o amparo legal do caso. E uma jornalista. Sim, o caso aconteceu.

Sobre o anonimato
Mas por que ela não tem nome nem cara? Não aparece em nenhum lugar?
Obviamente se você faz essas perguntas, você precisa de mais solidariedade com o outro. Vou te colocar na seguinte situação: imagina que você sofreu um estupro. Você vai fazer o que? Colocar na rede social e sair contando pra todo o mundo? Mas por que você não faria isso? Não é uma situação agradável, não é? Não é uma situação que você queira reviver com essa frequência.

Agora imagina a situação da Maria*. Era o momento mais legal que ela poderia viver, o nascimento de seu filho. E esse momento foi roubado. Ela foi violentada, se sentiu abusada sexualmente. E mesmo assim cuida de seu filho 24h por dia como qualquer outra mãe no puerpério, lidando com todas as dificuldades naturalmente já impostas por essa fase. Mas além disso ela tem que lidar com pessoas insensíveis que emitem julgamento porque reconheceram ela pela publicação do médico Iaperi. A publicação teve sim repercussão negativa em sua vida.

Então não, ela não vai se expor mais ainda. Ela quer curtir o que lhe resta. E para ter voz ela não precisa ter cara. Todas nós mulheres damos voz a ela. E trabalharemos até que algum tipo de justiça seja feito. E vamos nos unir e nos fortalecer cada vez mais para mudar esse sistema.

Violência obstétrica não é drama, é realidade.
Mas depois de ler isso tudo pode ser que exista pessoas que acham que possa ter acontecido algo sim, mas que a história é muito dramática.

Xa eu falar uma coisa pra você: Violência obstétrica não é drama, é realidade.

Muitas mulheres nem sabem que sofreram violência obstétrica. Mas relatam sentirem uma memória ruim em relação ao parto. Nessa sociedade machista e nesse sistema patriarcal (sim, sou feminista e luto pela igualdade), com a interpretação pra lá de medieval do “parirás com dor”, a mulher que luta pela autonomia de seu corpo e de sua vida é taxada de surtada, com o objetivo de humilhá-la e deslegitimar seu poder de escolha.

Então, vou colocar algumas fontes confiáveis para você se informar e ver que violência obstétrica não é drama e que é uma realidade das maternidades públicas e privadas brasileiras. Ah, vale ressaltar que cesárea não salva ninguém de violência não tá? A violência obstétrica é institucional e de gênero. Ou seja, só por ser mulher é um fator de risco.
Vamos lá:
Não importa sua opinião pessoal sobre a mulher. Houve agressão, realização de procedimentos contrários às diretrizes do MS e da OMS, à portaria 371 e muita falta de respeito. Isso é uma violência. 


Mas se você ainda não ficou sensibilizado com o caso, faça o seguinte: fique grávid@ ou acompanhe alguém grávida que queira ter um parto natural, seguindo as recomendações da OMS, e diga que tem direito de decisão sobre seu corpo, que você quer respeito a sua autonomia e você terá uma grande probabilidade em testemunhar atos de violência obstétrica. Porque você está indo contra um sistema muito produtivo para a indústria do nascimento. Porque você depois vai ter que ir contra o corporativismo médico. Porque as pessoas esqueceram do que é prestar o cuidado. E a violência preenche as práticas rotineiras intervencionistas desses profissionais da assistência ao parto e nascimento.

Mas eu queria encontrar ela para dar um apoio
Deixe sua mensagem de apoio aqui: http://nosnaodormimos.tumblr.com/

E o que vocês estão fazendo?
Estamos em rede de apoio. A Lígia, do Cientista que virouMãe e as mulheres da Artemis estão coladinhas com o caso para ter encaminhamento, como o ocorrido com o caso de Adelir. Uma denúncia já foi entregue e acompanharemos o encaminhamento.

Você sabia?
O médico Iaperi (que disse que ia deixar a obstetrícia #torcemos) tem um processo no passado. Ele foi acusado pela morte de um bebê pelo uso de fórceps.

¹O Movimento pela Humanização do Parto e Nascimento no Brasil tem uma força muito grande, porque trabalha em rede. Se você sofreu violência obstétrica em Natal e se sente preparada para denunciar, denuncie. Você não está só. É extremamente essencial que a violência obstétrica saia da invisibilidade. Precisamos mudar essa realidade, todos os dias. Se você testemunhar alguma violência também, não fique calado. Ajude a fazer uma sociedade de paz.


Juntas somos mais fortes


domingo, 13 de julho de 2014

O reencontro, a roupa e a força

Você descobre a gravidez, a barriga cresce, as roupas deixam de caber e mudam. O bebê nasce e você passa os primeiros meses sem nem olhar direito pra você. Algumas passam anos. As roupas de antes que você guardou retomam às vezes o mesmo corpo, mas não a mesma pessoa. Talvez elas ainda te sirvam, ou não, mas não imprimem o que você quer. Na verdade você nem sabe direito com o que se sente bem mais. Com que roupa, com que cabelo. Mas chega uma hora que cansa tanto desencontro de si mesma.
Esse desencontro é tão comum. As mulheres depois que são mães são encorajadas muitas vezes a se apagarem. As que se afirmam e se expressam livremente, com ideias contrárias aos valores do patriarcado, sofrem muitas repressões cotidianas. De todos os lados. Afinal, poucas pessoas se deixam pensar diferente e refletir sobre seus preconceitos.

Eu senti isso depois de ser mãe. Se já tinha ideias feministas antes, depois elas se concretizaram mais ainda. A opressão parece que duplica. Mas a força interna quadriplica.

E aí veio ela, minha mãe. Tinha mais de um ano que não pensava sobre o que vestia. Sabia que não tava legal, mas não sabia também como seria. Saí uma ou duas vezes pra comprar roupa pra mim e saía com várias roupas pra Cauã. Chegou pra mim e me deu um shortinho jeans, bem curto. Vesti e me senti nua. Acho que nunca tinha usado algo tão curto na minha vida. Ela me encorajou e eu saí com ele. Demorou até eu me acostumar. Às vezes penso que até eu mesma precisava desconstruir a ideia de ser mãe dissociada da de ser mulher.

E foi libertador. Daí pra frente, fui me reencontrando. Mas não tanto. Foram doses homeopáticas nesses quase dois anos. Definitivamente posso dizer que os grandes catalisadores foram as possibilidades que tive de estar em círculo com mulheres e de estar junto de grandes mulheres amigas. É uma coisa incrivelmente fortalecedora estar compartilhando com mulheres.

Se você é mulher e mãe, recomendo fortemente que tenha um grupo de amigas mães também. É incrível como nos fortalecemos e nos curamos umas às outras. Não precisa de assunto pré-estabelecido, de ritual, símbolos nem nada. Basta estar de alma e coração junto pra crescer. Ontem nos reunimos mais uma vez, depois de muito tempo. Fizemos um escambo – levamos coisas do guarda-roupa que queríamos doar. Trocamos, damos e recebemos. E nos reecontramos nos fortalecendo, como sempre.

Muitas vezes a vestimenta está associada com a ideia de consumo e de superficialidade. Mas ela pode não estar também. Já pensou como a história da indumentária e a revolução feminista andam lado a lado? Ou como o momento histórico de uma sociedade pode ser muito bem compreendido pelas roupas que se usam? Por exemplo, na segunda guerra mundial, na França e na Alemanha a paleta de cores das roupas eram escuras. Os tecidos, grossos. Os sapatos, grosseiros. Porque era isso que a sociedade estava vivendo: escassez, rigidez e tristeza.

Na vida a vestimenta pode aparecer como fator auxiliar pro desenvolvimento de auto-confiança, auto-conhecimento. É isso que vem acontecendo comigo e com minhas amigas de jornada. Estamos nos reecontrando, nos reconhecendo depois de tanto nos afastarmos de nós mesmas. E quando a gente se reencontra, a gente se fortalece. Quando a gente compartilha, fica mais leve.

Sabe, hoje acordei diferente. Vesti a calça que peguei de uma amiga ontem no escambo, coloquei um sapato que não usava há cerca de 3 anos, botei um lenço na cabeça e me senti linda. Muito provavelmente não pelas coisas que me adornavam, mas pelo que o encontro prévio me proporcionara: um sorriso na alma e mais coragem para cumprir minha missão.

Estar em círculo com mulheres é um presente.

Estar em contato com nosso interior é uma sabedoria.

Poder compartilhar a jornada faz ela mais leve, e incrivelmente mais prazerosa!  

Que a energia feminina universal esteja conosco, sempre, nos lembrando do nosso poder criador!

quarta-feira, 26 de março de 2014

Sobre o desmame

Eu sou apoiadora incondicional da amamentação. Quando fiquei grávida esperava ansiosamente por esse momento. Quando ele aconteceu, depois de alguns perrengues, foi maravilhoso! No início eu não entendia mulheres que não queriam amamentar. Na verdade não só não entendia, como também as julgava. E depois, ao longo do tempo, fui vivenciando a maternidade e percebendo os vários aspectos emocionais relacionados à amamentação e percebendo como é complexa essa entrega. Laura Gutman, no livro A revolução das mães: o desafio de nutrir nossos filhos, diz:
Portanto, digamos com todas as letras: para dar de mamar temos que estar dispostas a perder toda a autonomia, liberdade e tempo para nós mesmas. É uma decisão. Na medida em que optemos por uma modalidade, perderemos vantagens na outra. Explicando de outra forma: se nos apegamos a nossa liberdade pessoal, possivelmente o bebê tenha que se conformar com outros alimentos, porque mãe e filho não encontrarão prazer nem relaxarão na amamentação. Ou, ao contrário, se decidimos dar prioridade a amamentação, perderemos liberdade e vida própria. Ambas as situações, amamentação e liberdade, não são compatíveis. Ninguém pode determinar o que é que cada qual deve fazer. Mas sim é importante que saibamos o que ganhamos e o que perdemos frente a cada decisão”
Confesso que em alguns momentos amamentar pode ser bem cansativo e enfadonho, principalmente quando há um aumento da demanda ou quando passamos por estresses da vida cotidiana. Algumas vezes nesse um ano e cinco meses de amamentação já cogitei a possibilidade de fazer o desmame, por não estar disponível emocionalmente a me entregar pra amamentação. No meu caso, quando passo por essas sensações negativas procuro uma maneira de lidar primeiro com elas sem interferir na amamentação, para perceber se consigo me resolver para voltar a me entregar. E tem funcionado. Mas para algumas mães não é possível, e é essencial conhecer nossos limites. Passei a estudar cada vez mais como seria possível fazer um desmame respeitoso com a criança e que respeitasse também os limites da mãe, depois que algumas amigas passaram por situações emocionais bem complicadas que não seriam fáceis de resolver e que se sentiam exaustas para amamentar.

A amamentação é muito importante pra saúde da mulher, do bebê e para o vínculo de ambos. Previne doenças, aumenta o sistema imunológico, auxilia na construção da confiança, no desenvolvimento craniofacial, entre tantos outros benefícios. A Organização Mundial da Saúde (OMS) orienta amamentar exclusivamente até os 6 meses e de maneira continuada até 2 anos ou mais. A composição do leite muda de acordo com o crescimento da criança. O leite materno é tão perfeito que contém exatamente o que a criança precisa naquela faixa etária. Por exemplo, o leite materno no segundo ano de vida é composto por:


  • 95% do total de vitamina C necessária;
  • 45% do total de vitamina A necessária;
  • 38% do total de proteínas necessárias;
  • 31% de calorias necessárias.

Outro ponto importante é que a proteção imunológica continua enquanto a criança é amamentada. Alguns benefícios extras de crianças amamentadas são: ficam menos doentes, tem menos diarreia, vão menos ao pediatra, tem menor risco de desenvolver obesidade, maior facilidade de sociabilidade, são mais espertas e permite um desenvolvimento emocional mais sólido. A amamentação se torna uma importante atividade para auxiliar a criança a adquirir sua independência. E essa aquisição ocorre de maneira natural quando ocorre o desmame natural, pois não se força a criança a pular estágios que ela ainda não alcançou de seu desenvolvimento. Desconheço artigos científicos que tragam pontos negativos da amamentação prolongada. O que os profissionais de saúde muitas vezes indicam, um desmame a um ano de vida na verdade está relacionado a fatores culturais e não às evidências científicas e orientações da OMS e MS.


O homem é o único mamífero em que o desmame (aqui definido como a cessação do aleitamento materno) não é primariamente determinado por fatores genéticos e instinto, sendo fortemente influenciado por fatores socioculturais. “ Elsa Regina Justo Giugliani, SBP
Um estudo de 1993¹ relata que a idade média encontrada para o desmame natural foi de 3 a 4 anos. O desmame precoce tem sido associado a uma necessidade emergencial de maior independência das crianças; sem a preocupação se ela está preparada para essa quebra. Ossos do ofício do modo de vida ocidental pós industrial onde os bebês aparentemente tem que sobreviver, porque a “vida não é fácil”, “ter independência é muito importante”. Enfim, com a industrialização da vida e o distanciamento do nosso eu, a relação mãe e bebê acaba sendo desconexa, mecânica, o que prejudica as interpretações dos símbolos que o bebê mostra. Ou seja, não há uma comunicação eficaz entre mãe e o bebê. Mera coincidência ou um reflexo da maneira que a sociedade vive?
Hoje, em muitas culturas “modernas”, a amamentação prolongada (cujo conceito varia de acordo com a “convenção” da época e do local) freqüentemente é vista como um distúrbio inter-relacional entre mãe e bebê. Perdeu-se a noção de que o desmame não é um evento e sim um processo, que faz parte da evolução da mulher como mãe e do desenvolvimento da criança, assim como sentar, andar, correr, falar. Nesta lógica, assim como nenhuma criança começa a andar antes de estar pronta, nenhuma criança deveria ser desmamada antes de atingir a maturidade para tal. Em harmonia com esta linha de pensamento, Dr. William Sears, um antigo pediatra, recomendava “Não limite a duração da amamentação a um período pré-determinado. Siga os sinais do bebê. A vida é uma série de desmames, do útero, do seio, de casa para a escola, da escola para o trabalho. Quando uma criança é forçada a entrar em um estágio antes de estar pronta, corre o risco de afetar o seu desenvolvimento emocional”. Essas palavras sábias podem ter pouco respaldo em sociedades individualistas, que tendem a acelerar o processo de independização do ser humano, substituindo o seio por métodos de auto-consolo como chupetas, paninhos, mantinhas, ursinhos, etc. […] Já se avançou muito na valorização do aleitamento materno nos últimos tempos. A recomendação da duração da amamentação passou de 10 meses na década de 30 para dois anos ou mais nos dias de hoje. Atualmente, fala-se em desmame natural como a forma ideal de desmame, sem especificar uma idade mínima ou máxima para que esse processo ocorra. Apesar desse avanço ainda estamos longe de encararmos o desmame como um marco do desenvolvimento da criança. Para chegarmos a este estágio, faz-se necessário entender e enfrentar as circunstâncias que, segundo Souza e Almeida, “ultrapassam a natureza e desafiam a cultura e a sociedade”. Elsa Regina Justo Giugliani, SBP
Há também uma sexualização do ato de amamentar. Culturalmente crianças que andam e que são amamentadas são vistas com certa desconfiança. Para algumas pessoas há até mesmo a desconfiança em relação à saciedade e ao teor nutritivo que o leite materno pode ter. O leite da vaca seria melhor? Não. O leite da vaca é do bezerro. E não deveria ser de ninguém mais. Pela vaca, pelo bezerro e pela saúde do nosso corpo, que consome uma bomba e sobrecarrega o organismo desnecessariamente, desequilibrando-o e tornando-o mais propenso ao desenvolvimento de doenças. (Saiba mais aqui)
“Através da amamentação, a mãe recebe uma resposta da boca do seu filho, das mãos dele, do corpo e dos olhos dele. Isso dá-lhe informação sobre como ele se sente e sobre o que ele está a fazer. Quase todas as mães que amamentam até mais tarde, afirmam que esta intimidade com o bebê é o elemento mais satisfatório da amamentação. Quando a mãe está a ter este tipo de prazer, ele transmite-se, por sua vez, ao seu filho. Os sorrisos dela, as carícias e o relaxamento do seu corpo, tudo isso ajuda a tornar a experiência da amamentação mais agradável para o seu filho, também. O contato da pele entre mãe e filho, estimula a hormona prolactina que pode aumentar os sentimentos maternais. Estes sentimentos maternais e de proteção em relação ao filho defende a criança de possíveis maus tratos e abandono por parte da mãe. Em países onde se tem melhorado e aumentado a amamentação devido às mudanças nas práticas hospitalares para que não haja separação entre a mãe e o bebé, encontrou-se uma redução no abandono de bebés por parte das mães.”¹
E quando amamentar não é mais prazeroso para a mãe? Quado ela está desgastada por diversos fatores de seu cotidiano, cansada emocionalmente, o que fazer? Antes de orientar a como fazer um desmame artificial de maneira gradual e mais respeitosa ao tempo do bebê, é bom nos perguntarmos as motivações de realizar o desmame, tomar consciência das consequências para mãe e bebê e para que a mãe tome uma decisão. Eu mesma, em alguns dias exaustivos ou em situações emocionalmente ruins, não sinto o prazer e a disposição em amamentar que sinto em outras oportunidades. Ajuda conversar com alguém, sair pra caminhar, ir a praia... 
“O pedido de ajuda para desmamar deve ser ouvido e acolhido com um pouco mais de sensibilidade por parte de quem se propõe a ajudar, visto que, na maioria das vezes, quando a mulher consegue verbalizar verdadeiramente o que a incomoda ou deseja, e uma vez que isso é realmente sanado, a amamentação pode continuar seguindo tranquilamente um caminho de alegria e sintonia entre mãe e filho!  Geralmente o pedido para desmamar é apenas um SINTOMA que demonstra outros problemas, outros desejos e necessidades daquela mãe, que são, na verdade, as coisas que precisam de cuidado e atenção. E passar por isso, para a mulher, pode ser uma ótima oportunidade para que ela aprenda a enxergar, verbalizar e legitimar seus verdadeiros sentimentos, desejos e necessidades! “ Luzinete R. C. Carvalho (psicanalista) (GVA)
Existem alguns tipos de desmame: o abrupto, o noturno, o gradual e o natural. O desmame abrupto é aquele feito sem levar em consideração o tempo da criança, de maneira abrupta. O desmame noturno é o que caracteriza um desmame guiado pelo bebê somente pelo período da noite/madrugada. O desmame gradual é também guiado pelo bebê e feito de maneira lenta. O desmame natural é o desmame ideal, quando a criança deixa de mamar sozinha. Não existe receita de bolo para fazer o desmame. Mas ele deve ser feito considerando a idade do bebê. No mínimo do mínimo um ano, mas mesmo assim as perdas são muito grandes. A partir dos dois anos pode-se considerar um mínimo com menos prejuízos. Cada binômio é um mundo diferente, carregado de emoções, vivências, rotinas e pessoas diferentes. O que temos que ter em mente, após conhecer e pesar na balança os motivos e os prejuízos para o desmame é que ele deve ser feito de maneira gradual, carinhosa e respeitosa ao tempo do bebê; por acordo da mãe e do bebê. Existem três aspectos que devem ser observados se existem sem a amamentação para considerar o desmame, que são sinais da maturidade e autonomia da criança: nutrição, afeto e comunicação.

Os estudos científicos mostram que o desmame não melhora o sono, nem o apetite e não torna o bebê um ser independente. Fique atenta a profissionais de saúde que indicam desmame por prescrição de medicamento. Muitos deles tem total desconhecimento que a maioria dos fármacos são compatíveis com a amamentação. Confira a lista de medicamentos que podem ser utilizados na amamentação de fontes confiáveis aqui e aqui. O desmame natural ocorre quando o bebê está pronto, é um estágio de seu desenvolvimento que foi atingido e que ele suspende por ter suprido o que lhe faltava para seguir adiante.

Jamais deve-se utilizar artifícios para que a criança rejeite o peito.
"O mais cruel e nocivo dos desmames abruptos é aquele que faz com que a criança prove no seio da mãe algo ácido, azedo ou amargo, especialmente quando isso é associado a uma visão terrível (seios pintados, com band-aid etc) do seio, objeto que até então só trazia prazer e que aparece repentinamente como algo assustador. […] Esses sentimentos e impressões ficam inscritos no córtex para o resto da vida, a confusão entre prazer e desprazer ficará gravada e um dos sintomas mais comuns será a inabilidade da pessoa para acreditar que merece prazer e que ele pode ser algo perene, confiável. Perdurará a impressão de que o prazer pode a qualquer momento virar uma ameaça. Nos piores casos a pessoa não consegue buscar o prazer, já caminha diretamente para a punição.Cláudia Rodrigues (retirado do Grupo Virtual de amamentação)
A amamentação é o primeiro vínculo entre mãe e bebê e é preciso compreender isso como a solidificação de uma relação de uma vida inteira. O que ocorre nessa fase fica guardado e pode refletir na infância e vida adulta em sentimento ruins sem causa aparentemente explicável. Por isso é preciso mais sensibilidade para enxergar esse momento e procurar ter respeito, amor e cuidado. O desmame gradual permite uma adaptação física e emocional da mãe e do bebê. Na mãe o desmame abrupto está relacionado à depressão, ingurgitamento mamário, mastite. O desmame gradual respeita a maneira que o bebê lida com a perda do contato íntimo da amamentação ao ser substituída por outros contatos.

Existem alguns métodos para o desmame noturno, como o da Elizabeth Pantley, Dr. Jay Gordon (ambos em inglês). Em português traduzido o da Elizabeth Pantley tem na De Peito Aberto Esses métodos são guiados pelo bebê e não concordo com nenhum deles plenamente. Talvez eles possam servir de orientação geral e não como um passo a passo. É preciso estar atento aos sinais que o bebê dá, considerar modificar outros aspectos e ir percebendo, escutando seu coração para ver o que funciona melhor para vocês.

Deixo abaixo como sugestão essas leituras para que as mães façam decisões conscientes.

DIGA NÃO AO DESMAME ABRUPTO.

Fontes:
-A revolução das mães: o desafio de nutrir nossos filhos - Laura gutman