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domingo, 9 de novembro de 2014

Ser mãe é isso...

Foto: Paula Hilst
Essa semana fui ser doula voluntária em uma maternidade pública de Natal.
Acompanhei um trabalho de parto muito bonito, cheio de força e superação se uma
mulher de 18 anos que não se achava capaz, mas que se descobriu ser.
Ela lidava muito bem com as contrações enquanto eu a apoiava.
Bebia uma água, queria saber mais de mim, cochilava.

Até que.

Até que o obstetra de plantão considerou melhor colocar o tal do sorinho.
O sorinho é um soro com ocitocina e é utilizado para acelerar o trabalho de parto.
Tudo fluía bem, as contrações seguiam ritmadas e cada vez mais fortes.
Ela conseguia descansar entre as contrações, mesmo com intervalos curtos.

Mas aí o danado do hormônio sintético pediu além.
Forçou o corpo a fazer uma força que ele não queria.
E ela começou a achar que realmente não conseguiria.

Que dor horrível, ela dizia.
Está tudo bem? Estava tudo indo tão bem.

E eu ali, como ela, refém de um sistema hostil com a fisiologia humana,
com a humanidade humana.
Seu rosto não passava mais uma feição de superação e força.
Mas de uma força descomunal e um descontrole sobre o próprio corpo.

Eu ajudava como podia. E o médico, um homem, com três residentes, homens,
que nada sabiam. Nada sabiam de menstruação, de ovulação, de cólica, de gestar, orgasmar,
parir, a não ser o que liam em livros. Eles, que nunca mães serão.
Ele me vem então repetidas vezes com a seguinte frase, a cada vez que ela suplicava de dor:

"Ser mãe é isso.... ser mãe é isso..."

Eu segurava nos dentes um Como pode você saber?

Não sabe de nada, inocente.
Ser mãe não é morrer de dor. Não é ser violentada, mutilada.
Ser mãe tem um significado pra cada mulher. E esse significado permeia sentimentos leves
como o amor, a entrega, o auto conhecimento, o fortalecimento.
É resiliência.

O que você acha que é ser mãe Doutor.... é violência.
Tão naturalizada, legitimada e testemunhada por quem deveria cuidar, todos os dias.

Ser mãe tem outro sentido.
Quem já testemunhou um parto sabe como coisa toda é muito simples, na verdade.
Não precisa de toda a caixa de ferramenta de aço cirúrgico pra acontecer.
Eu gostaria que eles testemunhassem todos os dias quão belo parir e nascer pode ser.

psiu: quem quiser ver um parto lindo dá uma olhada nesse aqui

psiu 2: Desafio 11 dos 30! 

domingo, 16 de março de 2014

O menino que queria pintar as unhas

Azul com purpurina prata. Assim estavam pintadas as unhas da tia preferida dele. Ele achou o máximo, pegou a mão, o dedo, a unha, olhou de perto. Mexeu pra um lado e mexeu pro outro. Viu a mudança de luminosidade no brilho quando se movia. Fazia isso levemente, sorrindo e falando. Pegou o esmalte, pediu pra pintar também. O pai pintou uma unha. Ele foi mostrar. Mostrou pro cachorro, pro gato, pra mãe, pra avó. Voltou, pediu pra pintar mais. O pai pintou a outra unha. De rosa. Ele achou o máximo. Mostrou pra todo mundo! Sorrindo! Quanta alegria! Então uma tia disse algo que repreendia pintar a unha de um menino. Ninguém deu muita bola. Eu fiquei refletindo. Que coisa esquisita. Brincadeira legal daquela, todo mundo se divertindo! Claro que entendi o preconceito de gênero, essa coisa incrustada na nossa sociedade: o machismo. Que pena danada, pensou, quando vejo que a grande maioria de nós humanos ainda vive como se ter pênis ou vagina que definisse se somos homens ou mulheres. Se gostamos de homens ou mulheres. Isso porque passamos a imensa maior parte do tempo cobrindo nossos órgãos sexuais. Já pensou? Se fosse só isso, na verdade só saberíamos se todo mundo andasse nu. Mas não andamos. Cauã adora colocar minhas tiaras. E ele usa. Eu uso. O pai já usou. Ele adora brincar de bola. Eu brinco, o pai também. E não é isso nem aquilo que vai fazer dele menino ou menina. Não estamos preocupados com isso. Ainda não consegui me desvencilhar de outras concepções incrustadas dessa porcaria de concepção de gênero, como a escolha de roupas. Mas vamos caminhando. Por enquanto ele parece confortável usando as roupas que usa. Mas se um dia ele não sentir, procurarei auxiliá-lo a encontrar as que lhe parecem mais confortáveis. Esperamos propiciar pra ele uma plenitude de infância com aprendizados de todas as brincadeiras legais e divertidas. No fim o que importa é que ele esteja feliz e se sinta amado. E nisso a gente se empenha!