quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

A violência nossa de cada dia

Situação 1) O pai pergunta pro filho se ele quer tomar um murro na boca em frente a uma atendente em uma padaria

Situação 2) Uma médica obstetra manda a parturiente em trabalho de parto pegar as coisas e ir embora ao ser questionada sobre os procedimentos que iriam fazer e diz que quem sabe mais é ela, que é médica

Situação 3) Uma pessoa discute com a outra, xingando e dando dedo pela janela do carro, porque a outra entrou na faixa sem dar a seta 

Situação 4) Uma mãe dirige palavras de maneira hostil ao filho, todos os dias. 


Essas são algumas situações vivenciadas por mim nessas duas últimas semanas. Poucas coisas ruins me deixam realmente perplexas como a violência deixa. Já faz algum tempo que eu estava bem triste por testemunhar tantas coisas em tão pouco tempo. Fiquei pensando se elas estiveram sempre ali e eu não as via. Fico bem incomodada quando testemunho violências assim e depois conversas de como a sociedade está violenta e mimimi. Desde quando nos desconectamos do todo? Não fazemos parte desse lugar violento não? E o que temos feito para melhorar a situação? O fato de algumas violências serem tão legitimadas deixa o quadro um pouco mais complexo. Algumas violências simplesmente não são vistas como violência. E não é só por uma pessoa, mas por várias. Veja só, imagina que você acordou de mau humor e se comunica de maneira grosseira com as pessoas. Isso é uma violência. Não só com quem escuta, mas com quem fala também. Se a gente pensar energicamente, o fato de xingarmos alguém no trânsito, por exemplo, joga para o universo uma energia densa e ruim, que provavelmente encontrará força em outras energias da mesma afinidade e que provavelmente resultará em um acontecimento ruim. Quando você grita comigo, a energia não é legal. Quando você me bate, a energia não é legal.     

Depois de ser mãe eu passei a entender melhor o porquê de educar sem violência ser tão fundamental. Faz todo sentido. Eu nunca gostei quando gritavam ou me batiam. Me calava porque era o jeito. Obedecia porque era o jeito. Muitas vezes o que consideravam respeito, era medo. Realmente parece que quando estamos cansados, estressados e desconectados de nós mesmos e do todo, o primeiro ímpeto para uma ação indesejada de nosso filho (ou de quem quer que seja) é o de usar a violência, seja gritando, ameaçando, ignorando, batendo. É um lado feio, mas é um lado que faz parte da gente. A jornada da vida não é fácil, e depois que somos pais e decidimos por uma pa/maternidade ativas, conhecer e refletir sobre os processos do desenvolvimento infantil e sobre o nosso próprio crescimento, produz situações de crescimento coletivo muito mais prazerosas. Viver de maneira consciente e coerente é essencial para mudar o mundo para melhor. Se estamos sendo agressivos com nosso filhos, é hora de olhar para dentro, pois aquela "danação" pode não ter a dimensão que damos a ela ou mesmo pode ser um sintoma de que algo na comunicação não vai bem. Por que essa situação me estressa? O que ele quer me dizer com isso? É preciso ir além. Laura Gutman, diz que a maternidade é o encontro com a própria sombra. Ao invés de fugir dela, vamos abraçá-la e procurar compreendê-la para que não depositemos pedras nas costas de nossos filhos que na verdade são nossas. Uma infância sem violência gerará seres mais comprometidos com o amor e a paz no nosso planeta. Assim não faz mais sentido? Se quer amor, plante amor. Em todos os lugares com todas as pessoas. É um exercício diário! 
Só poderia encerrar com um pedido:


para ler:
Comunicação não violenta - Marshall Rosemberg



sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Fralda de pano, o tanque não te pertence mais

Se ficamos com uma imagem de que fralda de pano é coisa do tempo da vovó e que dá trabalho pra caramba, é porque provavelmente a gente não sabe muito sobre as fraldas de pano modernas. Me lembro como hoje, quando ainda estava grávida e mostrei pra minha mãe as primeiras fraldas de pano que tinha comprado, que tinha demorado um tempão pra escolher as estampas, os modelos... e ela então me disse: você gosta de arrumar trabalho hein? Ela já foi da geração das descartáveis, pra ela tudo muito prático e funcional. Fralda de pano era sinônimo de trabalho a mais. Pois bem, o objetivo desse post é exatamente de falar da minha experiência com as fraldas de pano modernas.

As fraldas de pano modernas são bem diferentes das fraldas de antigamente porque tem uma grande variedade de modelos, materiais e de absorventes e podemos tacar tudo na máquina de lavar (EEEEEE). Aqui vou falar só do basicão, porque podemos ficar horas falando delas. Os modelos nacionais tem elástico caseado que regula tanto a medida da cintura quanto da perninha, o que aumenta muito por quanto tempo que você vai usar. Além disso elas possuem vários botões ou velcros pra ajudar no quadril. 
elástico
Fralda de pano Fralda Madrinha
Basicamente existem três tipos:

  1. a capa: que é tipo uma fralda enxuta, que você coloca o absorvente por cima e fecha)
    Foto fraldasecologicas.art.br
  2. a pocket: que tem um bolso e que você pode inserir o absorvente tanto dentro do bolso e ela ficar como uma descartável (apesar de ser mais prático você suja mais fralda) ou usar o absorvente por cima e fechar como o modelo de capa e ficar trocando só o absorvente
    Foto bebebrasileiro.net
    3. All in one (AIO): são as fraldas que funcionam como as descartáveis, o recheio já vem costurado dentro da fralda, é só tirar e colocar outra. É prático, mas demora bem mais pra secar.
Quanto aos materiais existem vários! As fraldas geralmente são feitas por uma camada de tecido, uma de impermeável (que não impede vazamento pra frente) e outra de tecido. E aí tem de algodão (a mais fresquinha), tem de microsoft/fleece/soft/poliéster que são tecidos sintéticos que deixam a sensação de sempre seca e além disso secam super-rápido, de carvão de bambu...

Quanto ao absorvente temos mais variedade também: atoalhado de algodão, microfibra (que nunca deve ficar em contato direto com a pele do bebê), a fralda cremer de praxe (mas tem uma absorção muito baixa), e o carvão de bambu. Você pode comprar um atoalhado e fazer um recheio bacana, corta e faz o acabamento.

Cada um tem uma preferência e cada bebê se adapta melhor com determinada combinação. Por exemplo, você pode comprar uma pocket de soft e algodão e usar como capa com absorvente de algodão dentro durante o dia e durante a noite fazer uma combinação reforçada de recheio (colocar mais absorventes pra aguentar a maior demanda de xixi) e colocar no bolso pra que o bebê não fique molhado a noite toda, já que o xixi vai passar pela camada de soft e ir direto pro absorvente.

Além disso, na hora de comprar tem que levar em consideração o clima de onde você mora. Aqui em Natal como é muito quente sempre, eu tenho em grande maioria fraldas de pano algodão/soft.

O bebê fica com um volume um pouco maior que o da fralda descartável, mas isso nunca foi problema aqui. Eu particularmente acho muito mais linda a fralda de pano com tantas estampas maravilhosas pra escolher! Eu tive que parar de olhar fraldas na internet porque eu queria comprar todas!

Outra vantagem é que o uso das fraldas de pano evita assaduras e evita o uso de pomada no bebê. Eu não uso pomada no dia-a-dia de trocas. Só se tiver vermelhinho por algum motivo excepcional como quando tá nascendo dente, ou se deixo por tempo demais uma fralda, ou se ele comeu algo que deixou a pele mais sensível... enfim. E quando passa tem que usar pouco, para não impermeabilizar a fralda. As pomadas de assadura geralmente são bem gordurosas...

Por que usar?
Bom, o que me motivou inicialmente era o excesso de lixo produzido e a dificuldade de decomposição das fraldas descartáveis. Depois descobri que a química das fraldas descartáveis ficavam em contato com a pele do bebê e que a maioria deles derivava do petróleo, além de ser muito mais abafado do que as fraldas de pano e o bebê nunca ter a propriocepção de que fez xixi. E depois vi o quanto poderia ser prático também.


É mais caro?

Botando na calculadora, vi que além de tudo as fraldas de pano inicialmente exigiriam um pouco mais de dinheiro, mas que no final das contas saíam muito mais baratas que as descartáveis. Cada fralda de pano nacional sai em média de R$35. Um enxoval bacana pra lavar dia sim e dia não são de 20 fraldas (aqui eu tenho mas uso muito menos em dois dias. Acho bacana investir em recheios. E essa vai ser sua compra... Dá R$700. Já se vamos pra descartável, o gasto é bem maior, imaginando que gasta-se em média 5600 unidades até o desfralde. Eu fui fazendo minhas compras aos poucos, comprava umas duas e esperava desafogar pra comprar o resto. As lojas tem também uns pacotes bem legais que valem muito a pena. Além disso, tem o grupo no facebook que tem fraldas usadas, seminovas, que sai bem mais em conta.

Que marca?

Outro motivo que me incentiva muito a comprar fraldas de pano nacionais é de saber que são mães que trabalham em casa que fazem. Geralmente são mulheres que mudaram de ramo depois da maternidade para ficar mais perto dos filhos. Acho incrível poder incentivar esse tipo de trabalho. Seguindo a linha do consumo consciente, é importante ver que a fralda nacional tem um valor maior que o da internacional por uma série de motivos, e que as marcas nacionais vendem a um preço justo, inclusive algumas utilizam cooperativas de costureiras para fazer algumas peças, então, há de se pensar muito sobre isso. Eu tenho de várias marcas nacionais e só de uma gringa. Sinceramente, acho as nacionais bem melhores. 


Como lavar?

Muito simples. Eu tenho uma caixa de plástica com tampa dessas que se compra em mercado e loja de 1,99. Ao longo do dia vou colocando as fraldas sujas lá e tampo. Quando é xixi coloco direto, quando é cocô, agora que já é um cocô mais durinho eu passo uma ducha higiênica no vaso e o a maioria do cocô sai lá. Geralmente preciso passar uma água no tanque com uma esfregadinha básica sem sabão pra tirar algum restinho, e coloco na caixa também. Por que não usar sabão? Porque o sabão impermeabiliza a fralda, e vai dar um trabalho danado enxaguar mil vezes pra tirar o sabão. Por isso, ao final de dois dias, coloco todas na máquina com um fiozinhoinho de sabão de coco líquido, bicarbonato e muita água no ciclo rápido e enxágue duplo. É preciso mais água do que sabão. Se a fralda ficar com resíduo de sabão, o cheiro vai ficar muito forte quando o bebê fizer xixi. O bicarbonato de sódio eu coloco por ser bactericida e fungicida. Geralmente coloco 1/4 de um copo americano pra meia máquina de 11kg. Uma vez a cada 15 dias uso meio copo de vinagre pra máquina cheia pelo mesmo motivo do bicarbonato. Só não pode misturar bicarbonato + vinagre na máquina hein? E uma vez por mês uso o óleo de melaleuca (tea tree), Uso 10 gotinhas pra meia máquina pra dar uma geral nas fraldas. O óleo de melaleuca é maravilhoso e dá um up nas fraldas, é bactericida, fungicida e tem um cheirinho delicioso. Só não pode usar muito, tá?

Foto clothdiapergeek.com
Acho que é isso o básico! Eu devo ter esquecido de alguma coisa, apesar de ter escrito em três dias esse post. Mas qualquer dúvida falem comigo.
Beijos


sábado, 9 de novembro de 2013

Carta a uma amiga que passa das 40 semanas de gestação

                                                        
A maternidade é uma coisa tão maravilhosa, tão bela e tão transformadora quando a gente permite mergulhar nesse oceano de turbilhões. Na gestação a espera é linda e um pouco solitária. Pelo menos me pareceu pra mim. Assim como você eu também lutei toda a minha gestação para ter um parto natural. Mas parece que encontrar apoio é bem mais difícil do que encontrar histórias macabras de conhecidos sem fim de folclores míticos resultado desse histórico dessa assistência de merda ao parto que temos no Brasil. Infelizmente, a grande maioria das pessoas não entende que é possível parir com dignidade, beleza e respeito onde a gente escolhe parir. Mas aconteceram tantas coisas ao longo da gestação e mais precisamente no finalzinho que me deixaram muito vulnerável emocionalmente. Lhe escrevo porque sei como é: o cansaço do peso, das pernas, o tampão saindo de pouquinho ou de muitinho (mas ele se regenera), uma contração aqui outra acolá... vários sinais de que a hora está chegando, mas ela parece que nunca vai chegar. A vontade de ficar com a barriga pra sempre e a vontade de ver logo nosso bebê fora da barriga. De viver logo aquilo de verdade. Enquanto tá na barriga parece muito teoria e no final a gente quer a prática quer ver o rostinho, a mãozinha... E se não bastasse os turbilhões de emoções que nos invadem por inteiro: um mix de ansiedade, medo, curiosidade e euforia, @ companheir@, a família, os amigos vão perguntando, querendo saber: nasceu? Poxa, sistema filhadaputa esse. Até o bebê tem que nascer logo. Algumas pessoas tem a audácia de cobrar o tempo, como se tivesse prazo de validade. Gravidez não tem prazo de validade. Tem prazo que o bebê quem dá. Seguindo monitorando, escutando, sentindo o bebê, a gente vai seguindo com ele na barriga até ele dizer: pronto, tô pronto. E a hora é dele. E da mãe. E só. Da gente você só quer respeito e paciência e apoio. Tô aqui amiga. Eu mesma vivi uma pressão muito chata quando caminhava pras 42 semanas. Eu não escutei meu corpo, não dei um pé na bunda da obstetra que insistia em procurar uma coisa pra justificar a retirada do meu bebê. E até hoje e sempre vou me perguntar como teria sido se tivesse tido essa sabedoria. O evento do parto é o seu renascer. Viva lindamente esse momento e saia fortalecida desse processo tão maravilhoso e transformador. Se permita se fortalecer nesse finalzinho! Não deixe que roubem esse momento de vocês. Que os espíritos de nossas ancestrais te acompanhem na boa hora e te envolvam de paciencia e coragem para parir linda onde você escolher. O tempo.... é seu.

Cheiro de jasmim.

sábado, 19 de outubro de 2013

Eu sou ativista da humanização do parto

Dei uma sumida, a vida tava uma loucura! Aniversário de um ano seguido de organização da Marcha pela Humanização do Parto! Ambos eventos foram sucesso total! Eba!

Fiz um texto que tá na nota do meu perfil do facebook e gostaria de compartilhar aqui também:

Sou ativista da humanização do parto e do nascimento

Não se trata só de via de nascimento. Não. O buraco é muito mais embaixo do que você imagina (e do que eu imaginava antes de entrar nessa luta também). A gente não quer forçar ninguém a parir naturalmente. A luta pela humanização quer respeito à autonomia e ao protagonismo da mulher na hora de parir, quer que ela tenha privacidade, tenha um pré-natal informativo e de qualidade abordando conteúdos menos objetivos do que altura uterina, pressão arterial e peso. Queremos que os profissionais tenham uma prática baseada em evidências científicas. Simplesmente porque as evidências científicas tem mostrado que o sentido que a assistência ao parto no Brasil vai tomando é um sentido errado que não beneficia nem a mulher e nem o bebê. Quando a gente fala em evidência científica a gente tá falando de um monte de pessoas que dedicam grande parte de seu tempo pesquisando e estudando mais a fundo determinado tema. Não é opinião. É estudo, tempo, análise, conclusão. E a prática não está sendo baseada em evidência científica na assistência ao parto no Brasil. E não está seguindo as diretrizes da Organização Mundial da Saúde e nem do Ministério da Saúde. O que a gente quer é que os profissionais forneçam informações de qualidade para que as gestantes façam suas próprias escolhas. Mas temos encontrado muita resistência por parte dos profissionais em abrir espaço para conversa. Então sempre seguimos o caminho de informar as mulheres. Porque as mulheres podem mudar a realidade da assistência. Exigindo uma nova conduta, questionando velhas práticas, requerendo seus direitos, denunciando violências. Se uma mulher, sabendo que em uma cesárea sem real indicação médica tem um risco de 3x mais complicação materna e 2,5x mais complicação neonatal, que a cesárea eletiva tem sido associada com desconforto respiratório do recém-nascido e com prematuridade iatrogênica, com depressão pós-parto, entre outras coisas e ainda assim ela escolher marcar uma cesárea... que assim seja. Mas acho uma pena que as mulheres encontrem médicos que topem fazer uma cesárea eletiva. E acho lamentável profissionais que se baseiam em motivos ultrapassados (quando não absurdos) para justificar uma cesárea. Cômodo pra quem? Bom pra quem? Se cesárea fosse a via normal de nascimento, acredito que a OMS e o MS não estariam preocupados com o elevadíssimo índice de cesariana no Brasil. E a mortalidade materna não diminuiu, mesmo com o uso massivo de intervenções. Será que precisa disso tudo mesmo pra um evento que acontece o mesmo tanto de tempo que a Humanidade existe? A luta pela humanização do parto é a luta pela escolha informada, pelo empoderamento feminino. Nosso corpo sabe parir, sabe gestar. Nossa luta é para que cada vez mais mulheres saibam que é possível parir com privacidade, com respeito, com autonomia, com liberdade, respeitando a fisiologia do nascimento. Porque é nosso direito parir e do nosso bebê nascer com dignidade. O parto não precisa ser um evento traumático, permeado de dor. Eu acredito que o modo como uma sociedade lida com o nascimento está muito relacionado a outros aspectos, como a criminalidade (já comprovou Michel Odent no livro O camponês e a parteira). Se ¼ das mulheres brasileiras relata ter sofrido algum tipo de violência durante o nascimento dos seus filhos, o que será de nossa sociedade? Nós da humanização do parto queremos enaltecer cada vez mais a beleza do nascimento. O milagre da vida.


Saiba mais sobre a Marcha pela Humanização do Parto e do Nascimento e do Movimento pela Humanização do Parto e do nascimento em Natal



sexta-feira, 30 de agosto de 2013

O Renascimeto (de mim mesma)

Depois de ir à pré-estreia do Renascimento do Parto, em João Pessoa, algumas pessoas me “cobraram” uma resenha sobre o filme, queriam saber como tinha sido a experiência e eu, que falo bem pouco sóquenão (principalmente quando o assunto é parto) resumia dizendo que tinha sido maravilhoso!
De fato, o é. Mas é bem mais que isso. Tem mais de uma semana que vimos o filme, e desde então, sigo digerindo muitas coisas.
Fomos marido, eu e baby ver o filme. Cauã dormiu o filme todo (uma pena que acordou no debate reclamando silêncio). Eu e o marido vivemos intensamente o filme. Nos emocionamos muito.

Não consegui dormir direito na noite depois do filme. Ficava me revirando, repensando, revivendo o nosso não parto. Durante o filme segurei a onda no choro com receio de acordar Cauã. A vontade que deu e que já tinha me dado muitas outras vezes era de voltar no tempo, mandar as médicas que fizeram terror psicológico comigo (“41 semanas com esse líquido? Você precisa ir ver sua obstetra AGORA, é bem preocupante” mesmo com um bem estar fetal) irem pra merda. Não, na verdade eu não iria em médico nenhum. Ia ficar em casa esperando a hora em que ele dissesse que estava pronto. Mas talvez eu não estivesse preparada pra tamanha pressão que é de todos que nos cercam passar das 40 semanas de gestação. Tanto que eu nem tinha coragem de falar direito com minha doula. Eu sabia que ela iria me puxar pra realidade, mas diante do contexto, me aterrorizei, junto com marido e mãe, diante da possibilidade de causar sofrimento ao meu filho (hoje com a informação que tenho, sei que estava tudo bem e que poderíamos seguir monitorando o bebê). É isso, me senti refém. E o que eu vinha lidando desde o nascimento em doses homeopáticas veio muito em uma dose única depois de ver o filme.

Lembro que depois que Cauã nasceu, eu passei algum tempo sem crer na humanidade. O mundo me pareceu por algum tempo um lugar muito hostil. Simplesmente me parecia impossível tamanha frieza diante de um ato como o nascimento, tamanha violência com a mãe e bebê separá-los, fazer procedimentos sem questionar, dentre outras coisas que vivenciei. Flashes vinham e iam na minha mente da tremedeira do pós-cirúrgico, do abandono na sala de recuperação, das mãos amarradas, de terem dado leite artificial quando pedimos que não o fizessem, da incapacidade de me dedicar à minha cria como queria, do silêncio da obstetra ao testemunhar a grosseria do anestesista comigo e com meu marido, da técnica em enfermagem mexendo na minha virilha espremendo pêlo encravado sem me perguntar... Em meio a tantas coisas ruins, me veio o cheiro, a textura da pele do meu bebê, do meu rosto esfregando o dele por microsegundos, do choro que se interrompeu quando ele escutou minha voz, do olhar que ele me deu pela primeira vez. Ver as cenas das mulheres parindo seus bebês de maneira tão respeitosa me reacendeu mais ainda a fé na humanidade. Depois de algum tempo vivendo o luto do nosso não parto, comecei o Movimentopela Humanização do Parto e do Nascimento em Natal junto de outras mulheres que também foram violentada durante o nascimento de seus filhos. Simplesmente eu não poderia silenciar diante dessa realidade violenta. E esse Movimento foi me alimentando de esperança em mudanças possíveis.

Entender como o modelo de assistência é perverso com as mães e bebês me ajudou a entender o nascimento do meu filho. E esse filme é tão poderosa ferramenta de mudança de consciência que eu me pego pensando em como vai ser lindo quando as sementes por ele plantadas encherem bosques. As pessoas podem até não sair modificadas imediatamente após assistir. Mas que elas devem passar algum tempo digerindo o que viram, repensando condutas e pensamentos.... ah vão! E quem disser que passou imune por esse filme eu desconfio de tamanha insensibilidade. Não estou falando só para as gestantes ou mães ou wannabe mães. O Renascimento é pra todo mundo, afinal, se trata da sensibilidade da Humanidade.

Eu posso dizer que saí muito mais forte do que entrei naquele cinema. Mais forte pra peitar os profissionais contrários à humanização, pra lutar pelas e com as mulheres pelo respeito que nos é direito, pra lutar para que bebês sejam respeitados e para que o sofrimento de ninguém seja naturalizado e silenciado. Mais forte pra viver o meu parto. Sou eternamente agradecida aos criadores pela possibilidade de vi(ver) algo tão lindo.

Pode te interessar:

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Baby Led Weaning (BLW) = DEIXA O BEBÊ COMER!

Você conhece o BLW? Quando Cauã ia começar a introdução alimentar, comecei a pesquisar sobre isso. Encontrei o BLW e confesso que não o utilizei desde o início. Bom, eu realmente cheguei a fazer algumas brincadeiras nesse meio tempo com exploração sensorial com comida, como essa aqui aos 7 meses.


Ele simplesmente adorava explorar os alimentos, e eu adorava ver ele fazendo aquilo, mas hoje vejo que não tinha entendido a proposta do BLW direito, como entendo agora. A introdução alimentar de Cauã foi muito conduzida pelo que a pediatra dizia, por insegurança minha. A medida que fui adquirindo maior confiança nos meus conhecimentos adquiridos por estudo e observações com Cauã, fui explorando mais os alimentos. Inicialmente, especialmente no primeiro mês de introdução, amassava beeeeeeeeeeeeeeeeeeem os alimentos no garfo. BEM mesmo. E Cauã não comia quase nada. Depois de um mês fui perceber o que a Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Ministério da Saúde (MS) dizem: alimentação complementar. Oras, se é complementar, ela não é o principal, certo? Certíssimo. Comecei a desencanar da quantidade e fui me preocupando com que ele tivesse prazer em comer. Inicialmente utilizei o Método Montessori, com copo de vidro, tigela de vidro e colher real (Uso até hoje). Pode me chamar de louca, mas eu li relatos e vi esse vídeo em particular que me encorajaram bastante. De 6 ele quebrou 5 copos de vidro. Comprei desses de cachaça, sabe? Bom, hoje com 10 meses ele não joga mais no chão, pois já sabe que quebra e que não é legal. Com 8 meses ele começou a tentar a colocar a colher na própria boca. Mas eu ainda não sentia que ele achava legal comer. E eu queria que fosse uma experiência prazerosa pra ele... Bom, não sei se foi por ser mãe de primeira viagem, mas apenas com 9 meses e meio é que consegui ver Cauã curtindo suas refeições de verdade. Eu digo de verdade porque finalmente conseguimos almoçar eu, meu marido e ele ao mesmo tempo sem ele reclamar. Isso aconteceu depois que aprofundei meus conhecimentos quanto ao BLW e resolvi colocar em prática. Antes dos 9 meses e meio eu fazia uma espécie de BLW sem a adaptação do alimento e eu dando o alimento (apesar de dar uma colher pra ele também, que obviamente ia parar no chão). Duuurrr! Por isso que dava errado provavelmente. A consistência era muito amassada e úmida e tudo misturado. Não tinha nem uma variedade de cor, coitado! Mas o que importa é que nas minhas tentativas e erros eu aprendi! YES! o/\o e hoje todos comemos com muito prazer! E devo dizer que Cauã come bem mais também.

Como é esse BLW?
O BLW é simples. É deixar o bebê comer sozinho, a partir dos 6 meses de idade, conforme as diretrizes da OMS. Você obviamente precisa deixar a comida adaptada ao bebê, mas não em forma de purê. Por exemplo, uma batata deve ser previamente cozida (no vapor de preferência) e fatiada de maneira que o bebê consiga pegar o alimento segurando com a mão e colocar na boca. Olha o que almoçamos hoje: couve flor com tofu picadinho com couve, batata doce, arroz integral, feijão com abóbora. Essa é a foto do prato do Cauã! Ele comeu um bocado! 

O bebê não engasga?
É importante seguir as dicas de segurança, como a maneira que você oferece o alimento para o bebê. Por exemplo, eu jamais ofereço espinafre, couve “soltos”. Eles estão sempre bem picadinhos em alguma coisa do prato (como em um tofu, ou no arroz), pois o bebê ainda não os dentes molares (os posteriores) para triturar esses alimentos.  Aqui as regras retiradas do grupo de BLW do facebook – por Érika Tavares:
Mantenha o seu bebê seguro:
  • Verifique se ele está sentado ao comer. O bebê deve sempre estar em posição vertical; NUNCA deitado. O alimento pode ir para o fundo da boca e o bebê pode não ter habilidade para movê-lo com a língua, resultando em engasgo.
  • Não dar nozes/castanhas/amendoins inteiros.
  • Os frutos pequeninos, como azeitonas, cerejas, acerola, jabuticabas, etc, devem ser cortados ao meio e retiradas as sementes.
  • Não deixe que ninguém, exceto seu bebê, coloque comida em sua boca.
  • Explique como funciona o BLW para todas as outras pessoas que cuidam do seu bebê.
  • NUNCA deixe seu bebê sozinho com os alimentos

Por que o BLW é uma boa opção?
Bom, além de propiciar uma variedade muito maior de exploração sensorial, devido às texturas, cores, formas, o BLW também faz com que a criança use mais os órgãos fonoarticulatórios (lábios, língua, dentes, bochechas) e a musculatura facial, o que colabora para o correto desenvolvimento craniofacial (aliado à amamentação então, é supimpa!). Além disso tudo, com o bebê guiando, ele sabe quando está satisfeito. Com papas provavelmente acontece uma ingestão de uma quantidade maior, por ser fácil de “entrar” é mais rápido do que o comando de satisfação que o cérebro manda.

Que mais?
Bom, uma coisa eu devo dizer. Se criança feliz é criança suja com certeza há felicidade no BLW. Aqui utilizamos o cadeirão de alimentação, e ele fica assim ó:


Já teve vez de alguém comer pelas orelhas!


E há sempre uma parceria do crime cachorro+bebê+comida
    


Quer saber mais? Indico:
Grupo de BLW no facebook
Site do BLW (em inglês)
Vídeo do Dr. Carlos Gonzalez sobre alimentação complementar

Por fim, deixo uma poesia da Fabíolla, que escreve no Alimento e Comportamento:
BLW é nada.
É só observação.
É deixar o dia que a cria vai comer acontecer.
É ter comida boa à mesa e a cria ter braço comprido para alcançar a vida nova alimentar.
Apetite infantil é família que come com gosto.
É não pressa, é respeito, é paciência e observação.
Pode acontecer a qualquer hora.
Não tem hora certa para acontecer.
Com 6 meses, com 9 meses, com 12 meses, cada um no seu tempo re-conhecendo o mundo novo, novo mundo.
Autonomia e diversão.
Comer sozinho sob supervisão.
Comer com as mãos, com os dedos, com os olhos e com o coração.
Não precisa de papinhas, só precisa de atenção.
No seu prato pedacinhos e aventura e comida lúdica.
Comer é brincar e nada mastigar.
Comer é mastigar brincando.
Comer é estar junto e compartilhar.
Importante atentar: comer é diversão.
Não é trapaça, não é chantagem, nem barganha, nem punição.
Não é também pressão.
É respeito e tempo.
Tempo de cada um crescer a seu tempo e se ver crescendo em interesse sem fim pela vida toda, por tudo dessa vida.
Comida, interesse e prazer.





terça-feira, 6 de agosto de 2013

Meu relato de amamentação

Mamando e recebendo cheiro!
Ainda na gravidez eu já tinha decidido que ia amamentar. Cada vez que eu procurava me informar, mais certeza eu tinha da minha escolha. No nascimento propriamente dito, no centro cirúrgico a pediatra colocou ele 5 segundos no meu peito e já disse que não ia dar certo porque meu bico do peito era plano. Como você sabe, eu passei por uma cesárea desnecessária, além de outras violências obstétricas durante o nascimento do meu filho. Lembro do meu marido saindo acompanhando a pediatra e eu lembrando ele: não deixe darem leite artificial (LA)! Não deixe! E ele afirmou com a cabeça. Quando chegamos no quarto, perguntei pro meu marido se tinham dado LA. Ele disse que pediu para não dar, mas o profissional que receptou ele disse que teria que dar porque era protocolo de rotina do hospital. (Um protocolo bem atrasado, diga-se de passagem). Enfim, fiquei muito mais triste e me senti muito mais violentada. Não respeitaram nenhuma das nossas vontades... Mas tudo bem, na manhã seguinte eu acordaria e daria de mamar. Durante a madrugada, uma técnica em enfermagem veio e deu LA. Eu estava dormindo, fiquei sabendo depois. Bom, chegou o dia em que levantei, ninguém veio me ajudar com a amamentação. Levaram ele para dar banho e quando ele voltou eu perguntei e disseram que tinham dado LA de novo. Fiquei muito mais triste. Bom, na hora do almoço que eu já tinha me levantado, quando a moça do berçário veio com sua caixinha de LA eu disse pra ela: Vamos fazer assim? Você me ajuda com a amamentação e se não der certo você dá LA pra ele. Ela disse: ok. Me ajudou, colocou ele no peito e ele mamou lindo. Meus olhos encheram d'água. Fiquei sentindo a maior plenitude da minha vida ao olhar praquele ser lindo sugando o que há de melhor em mim! Depois chamei umas mil vezes alguém do berçário pra me ajudar. Toda vida que ele tinha que começar a mamar, eu precisava de ajuda para entender como era a pega e tal. O problema (hoje que eu sei) é que elas vinham, colocavam ele no peito e iam embora. Elas não me ensinaram mesmo. Bom, chegou o dia de alta, fomos para casa e aí começou os 15 dias mais esquisitos da minha vida! Eu simplesmente não conseguia colocar ele no peito sozinha. Ele tinha dificuldade em abocanhar a auréola e eu achava que o problema era o bico do peito. Chamei minha doula inúmeras vezes, que é também consultora em lactação e fonoaudióloga, e ela me ajudou pra caramba! Mas o problema persistia... Comecei a ter fissuras horríveis no peito! Doía tanto para amamentar! Mas para mim não tinha outra opção. Eu não ia desistir. Cheguei a colocar toalha na boca para morder quando ele dava as primeiras sugadas, de tanta dor que a pega incorreta dava. Um dos peitos chegou a sangrar. Algumas vezes pensei em dar logo o NAM, mas logo isso passava. Lembrava dos relatos de amigas e de outras mães dizendo que amamentar não era tão fácil para algumas mulheres... Comprei um bico de silicone pra ver se ajudava. Pensei que talvez fosse a falta de bico que estivesse dificultando. Pareceu ajudar no primeiro tempo, mas as fissuras continuavam. Quando Cauã pegava direito no peito, mesmo com o mamilo machucado, eu não sentia dor. O problema era que não conseguia acertar a pega sozinha, me desesperava com o choro dele, e minhas inseguranças vinham à tona. Ele sentia meu medo de não conseguir. Fiquei sem usar sutiã, deixando o peito respirar bem. Ordenhava leite e deixava estocado para dar para ele no copinho quando não conseguia dar o peito. Até que fomos no banco de leite para fazer o cadastramento de doadora de leite. Lá pedi ajuda, mostrei as fissuras, as bolhas de sangue... E aí eu encontrei uma senhora simples, do interior. Mandou logo eu tirar o bico de silicone, disse que não tinha necessidade. Disse que meu bico do peito não tinha nenhum problema. Me colocou numa sala e lá me deixou a vontade. Disse para eu ficar lá o tempo que fosse e chamar ela quantas vezes fosse necessário. Ela me mostrou como tinha que ficar a boca dele no peito e ela saiu. E aí fiquei lá nessa sala. Chamei ela umas duas vezes. Perguntei como era mesmo a posição do braço? Da boca? Do peito? Aí ela disse algo que foi fundamental para o sucesso da amamentação: esquece a técnica. Bebês choram. Não se desespere. É a única maneira que ele tem de falar pra você o que ele quer. Se você se desesperar, ele vai sentir. Veja qual a melhor posição pra você, não fique presa a posições. E aí foi quando tudo aconteceu. A partir daquele momento ali na sala, por tentativa e erro, eu fui construindo minha confiança em vários aspectos e me comunicando com meu filho. Lá eu chorei um bocado ao ver que tinha conseguido sozinha. Foi incrível. Depois desse dia tiramos de letra! Larguei a almofada de amamentação pra lá e fui seguindo minha intuição. Foi assim, com a ajuda de várias pessoas e principalmente com o apoio do meu marido, que me incentivou, deu a mão pra eu apertar quando sentia dor, e com o amparo da família que conseguimos estabelecer uma amamentação prazerosa! Hoje estamos com quase 10 meses de amamentação, sendo 6 desses com amamentação exclusiva. Em todas as posições! =)

Para mim hoje percebo como amamentar é se doar. Tenho profunda admiração por essa entrega, essa conexão, essa troca de amor com tanta pureza e beleza!


Esse relato foi para comemorar a Semana Mundial da Amamentação 2013! O tema não podia ser melhor: Apoio próximo, contínuo e oportuno! Ou seja, um apoio de qualidade, um apoio acolhedor e sensível à realidade de cada mãe! 

Mamíferas unidas!