quinta-feira, 19 de junho de 2014

Um chamado para a revolta: a publicidade é anti-minimalista

Tem um site que eu adoro ler. Principalmente quando me sinto meio down precisando de uma leitura revigorante, corro pra ele. Foi ele, o Leo Babauta que me instigou na busca em ser minimalista. Faz uns 4 meses que estamos nesse movimento aqui em casa, e tem sido uma roda gigante de emoções. Mas antes de falar do que venho vivendo, achei interessante traduzir esse texto dele sobre minimalismo e publicidade publicado nessa semana no site dele, o Zen Habits. Acredito que esteja muito relacionado a muitas coisas que falo aqui no blog. Os textos dele são livres de direitos autorais, porque assim ele acredita que suas palavras alcancem um maior número de pessoas. O nome do texto original é  A Call for Revolt: Advertising is the Anti-Minimalism, que você pode acessar clicando aí no título em inglês.

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O maior obstáculo para uma vida minimalista é a publicidade.

Vamos pensar sobre essa afirmação por um minuto: o que é uma vida minimalista e o que nos impede de alcança-la? Como a publicidade está envolvida?
Uma vida minimalista pode ser muitas coisas, mas em sua essência é tornar-se consciente sobre o que temos em nossas vidas. O espaço é limitado: nós temos horas limitadas em um dia, anos limitados em nossas vidas e espaços físicos limitados em nossas casas.
E nós enchemos todo esse espaço limitado inconscientemente, enchendo-o demais sem considerar ao menos se essa é a melhor maneira para usar nosso espaço.
Minimalismo é sobre pausa, e questionamentos sobre o que realmente é necessário. O que pertence a esse espaço e o que pode ser retirado? É a fantasia em nossas mentes que é a causa para buscarmos preencher inconscientemente a realidade que pensamos que fôssemos viver?
O objetivo da publicidade é exatamente o oposto: ela quer que nós gastemos sem pensar sobre isso. Quer quer compramos no impulso. Quer implantar fantasias em nossas mentes que façam com que saiamos e compremos.
Pense sobre um anúncio para roupa, ou para um produto da Apple, por exemplo: eles mostram lindas pessoas vivendo vidas maravilhosas, centrada na solução simples de possuir o produto em suas mãos (ou em seus corpos).
Anúncios para um sabão fazem com que pensemos que nós não teremos somente uma pele limpa, mas uma maçã do rosto perfeita e um namorado bonitão que nos ama.
Anúncios para um novo aplicativo fazem com que pensamos que de repente seremos mais organizados e mais produtivos e todas nossas necessidades serão magicamente sanadas com esse programa muito bem desenhado em nosso smartphone.
Obviamente, nada disso é verdade – nós não seremos mais organizados nem produtivos, nem mais saudáveis e bonitos, nem mais propensos a ter um(a) namorad@ bonit@ se comprarmos qualquer um desses produtos. Seremos apenas mais pobres com mais coisas para encher nossas já tão cheias vidas.
O pior da publicidade é que não só implanta fantasia em nossas mentes que nós instantaneamente queremos... como também nos dá uma sensação de vazio. De repente não nos sentimos completes, nem felizes, porque não vivemos a vida ideal. Nós não somos bons o suficiente ainda. Nós não somos felizes ainda.
E comprar não irá melhorar esse vazio. Nós compramos, e ainda não temos a fantasia, e então nos sentimos mal sobre nós mesmos. Nós ainda temos o vazio em nossos corações que nunca poderá ser preenchido.
Publicidade é o sussurro insidioso do anjo mal do comércio.
Eu não culpo os publicitários: eles foram pegos em um jogo onde eles tem que fazer publicidade ou morrer. Eu não culpo os consumidores: essa é a sociedade em que vivemos e nós nunca vivemos de uma maneira diferente.
Eu não culpo nem as agências de publicidade: os Googles e Don Draper do mundo só estão tentando fazer grana como tomo mundo, e descobriram o que funciona. Por que não fazer o que é eficaz, né?
Não culpe o jogador. Culpe o jogo.
Estamos presos em um jogo no qual temos que fazer mais dinheiro e consequentemente fazer propaganda, e para ser eficaz nisso precisamos introduzir fantasias inalcançáveis, um sentimento de vazio que não pode ser atenuado.
Estamos presos em um jogo onde o processo inteiro é OK com todo mundo, na verdade porque os mais bem-sucedidos são aplaudidos - Steve Jobs, Jeff Bezos, Barack Obama, Larry Page, Mark Zuckerberg, Steven Speilberg, Walt Disney, et al – eles são os vencedores de nossa sociedade. Nós endeusamos eles.
As pessoas que fogem desse jogo são ridicularizadas e taxadas pejorativamente de hippies, esquisitões e vagabundos.
Eu digo que devemos sair desse jogo. Pegue ele pelo cinto e mande-o para a calçada.
Eu acho que devemos nos revoltar.
Nós podemos nos revoltar simplesmente escolhendo sair disso. Eles não tem uma opção de entrada no formulário desse jogo, mas nós mesmo assim podemos sair mesmo sem terem nos dado essa possibilidade.
Nós podemos fugir não assistindo propagandas. Não tendo elas em nossos sites. Não comprando ingressos pra filmes que são simplesmente propagandas inteligentes. Não acreditando nas fantasias. Não comprando por impulso. Não usar como terapia ir às compras. Não usar compras como uma solução para tudo. Não apoiar as mídias que apenas estão lá para que leiamos os anúncios entre as estórias. Não indo a sites que tenham propagandas com popups intrusos. Não ouvindo a propagandas da radio. Não assistindo vídeos online que tenham propagandas. Não usando o email com propaganda. Não utilizando logos em nossas roupas. Não tatuando logos em nossos corpos. Não indo para parques temáticos que são apenas grandes propagandas para seus produtos. Não comprando quando estamos de férias. Não comprando presentes para celebrar datas. Não comprando smartphones por causa de anúncios que vimos. Não comprando roupa ou maquiagem ou produtos para a pele que façam com que pareçamos com a fantasia. Não lendo revistas que tentam fazer com que tenhamos uma fantasia de como deveríamos parecer. Não assistir a programas de TV patrocinados por anúncios.

Parece muito? Sim, eu concordo: estamos muito impregnados em propagandas. Não podemos sair deles. Somos dependentes. A revolta é muito revoltante. De volta a sua programação regular programada

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Seu discurso é contra produtivo?

Cauã enfia o dedo na tomada. Eu digo Não faça isso Cauã, machuca. Ele faz de novo. Eu digo Cauã, Não. Ele faz de novo. Eu digo com a voz alterada Cauã, NÃO pode. Ele continua. Chego a conclusão de que não adianta perder a cabeça, gritar e se estressar. Estou sendo contra produtiva. Não estou oferecendo outras opções mais interessantes que a tomada naquele momento. Tomo consciência, olho ao redor e peço pra ele pegar a bolinha do gato que estava no corredor. Ele vai, joga e começa a brincar comigo e o gato. Não volta pra tomada. 
Tem tantos momentos na nossa vida que somos contra produtivos. Algumas pessoas costumam ser na maior parte do tempo. Mas quando estamos vivendo conscientemente de nossas ações, muito dificilmente aceitaremos viver sendo contra produtivos. Porque ser contra produtivo cansa bem mais do que não ser. Exige maior energia em tentar se fazer entender e acabamos escolhendo vias negativas para conseguir uma comunicação eficaz, geralmente nos impondo através do grito, da grosseria. E aí as coisas tendem a ficar bem mais pesadas e desagradáveis. Lembro que quando comecei a ser ativista da Humanização do parto, tinha a errônea concepção de que as mulheres que faziam cesáreas e que tinham um discurso cesarista fossem pessoas más. Depois de amadurecer e de me informar, consegui sair do papel da dualidade de bomXmau e passei a perceber como era ruim pra mim entrar em debates contra produtivos com pessoas que não estavam a fim de compartilhar, ouvindo e falando, mas de impor o que acreditavam. E eu era uma dessas também. Queria impor. Agora não faço mais isso. Me consumia um montante de energia que agora escolho empregar pra fazer a informação chegar através de ações educativas aonde ela não está chegando:nas mulheres. Em outras esferas da nossa vida também podemos ser contra produtivos: nos relacionamento quando não falamos abertamente o que sentimos, quando estamos obcecados por algo que por algum motivo de ordem superior (destino? Deus? Energia cósmica ou como queira chamar) não acontece nunca, quando entulhamos nossas casas e armários de coisas além do que é realmente necessário (apesar de quantitativamente isso ser subjetivo), quando pensamos demais e não agimos nunca, quando não cuidamos da nossa saúde, da nossa alimentação, da nossa mente.... Ou quando o medo nos paralisa. Para mim a maternidade se mostra sempre como agente catalisador de mudanças positivas, e viver conscientemente em todos os aspectos da minha vida tem feito a minha vida melhor e bem mais produtiva. Quando digo produtiva, não me refiro à conotação negativa do modus operandi capitalista. Quero dizer que me tornei mais consciente do que quero fazer aqui, de quanto e como gasto minha energia, meu tempo de maneira a tornar a vida mais leve e feliz de acordo com meus valores e crenças de agora. 
E você? Já percebe quando é contra produtivo? Onde gasta mais energia?

terça-feira, 13 de maio de 2014

Um pensamento escrito

Eu te acalento. Você me abraça. Felicidade, leveza. Cumplicidade. A jornada não é fácil. Mas é bela e pode ser leve e deliciosa. Amizade, entrega. Amor. Disputa não. Vamos trocar? Somar, multiplicar, crescer! O amor. A gentileza. A compaixão. Juntas. Dá a mão. Vem. 

A existência pode ser muito mais interessante se estivermos envolvidos por sentimentos e pensamentos bons e cercados de companheirismo, em qualquer relação.

A maternidade não é um campo de disputas. Ela pode até se tornar, mas eu não entro no ciclo. Juro pra mim mesma que não vou entrar. Que não vou vibrar essa energia. Porque ela não é legal. Ela divide, e enfraquece tudo que pode ser positivo. Então, mesmo com pensamentos e maternagens que não são as mesmas, e nunca serão no todo, podemos maternar e conviver em paz. Desde que estejamos com energias afins. A minha está muito a fim de compartilhar e de crescer e me fortalecer com outras mulheres.

E a sua?

Juntas somos mais fortes.

Foto de witchclubhouse.blogspot.com

quarta-feira, 26 de março de 2014

Sobre o desmame

Eu sou apoiadora incondicional da amamentação. Quando fiquei grávida esperava ansiosamente por esse momento. Quando ele aconteceu, depois de alguns perrengues, foi maravilhoso! No início eu não entendia mulheres que não queriam amamentar. Na verdade não só não entendia, como também as julgava. E depois, ao longo do tempo, fui vivenciando a maternidade e percebendo os vários aspectos emocionais relacionados à amamentação e percebendo como é complexa essa entrega. Laura Gutman, no livro A revolução das mães: o desafio de nutrir nossos filhos, diz:
Portanto, digamos com todas as letras: para dar de mamar temos que estar dispostas a perder toda a autonomia, liberdade e tempo para nós mesmas. É uma decisão. Na medida em que optemos por uma modalidade, perderemos vantagens na outra. Explicando de outra forma: se nos apegamos a nossa liberdade pessoal, possivelmente o bebê tenha que se conformar com outros alimentos, porque mãe e filho não encontrarão prazer nem relaxarão na amamentação. Ou, ao contrário, se decidimos dar prioridade a amamentação, perderemos liberdade e vida própria. Ambas as situações, amamentação e liberdade, não são compatíveis. Ninguém pode determinar o que é que cada qual deve fazer. Mas sim é importante que saibamos o que ganhamos e o que perdemos frente a cada decisão”
Confesso que em alguns momentos amamentar pode ser bem cansativo e enfadonho, principalmente quando há um aumento da demanda ou quando passamos por estresses da vida cotidiana. Algumas vezes nesse um ano e cinco meses de amamentação já cogitei a possibilidade de fazer o desmame, por não estar disponível emocionalmente a me entregar pra amamentação. No meu caso, quando passo por essas sensações negativas procuro uma maneira de lidar primeiro com elas sem interferir na amamentação, para perceber se consigo me resolver para voltar a me entregar. E tem funcionado. Mas para algumas mães não é possível, e é essencial conhecer nossos limites. Passei a estudar cada vez mais como seria possível fazer um desmame respeitoso com a criança e que respeitasse também os limites da mãe, depois que algumas amigas passaram por situações emocionais bem complicadas que não seriam fáceis de resolver e que se sentiam exaustas para amamentar.

A amamentação é muito importante pra saúde da mulher, do bebê e para o vínculo de ambos. Previne doenças, aumenta o sistema imunológico, auxilia na construção da confiança, no desenvolvimento craniofacial, entre tantos outros benefícios. A Organização Mundial da Saúde (OMS) orienta amamentar exclusivamente até os 6 meses e de maneira continuada até 2 anos ou mais. A composição do leite muda de acordo com o crescimento da criança. O leite materno é tão perfeito que contém exatamente o que a criança precisa naquela faixa etária. Por exemplo, o leite materno no segundo ano de vida é composto por:


  • 95% do total de vitamina C necessária;
  • 45% do total de vitamina A necessária;
  • 38% do total de proteínas necessárias;
  • 31% de calorias necessárias.

Outro ponto importante é que a proteção imunológica continua enquanto a criança é amamentada. Alguns benefícios extras de crianças amamentadas são: ficam menos doentes, tem menos diarreia, vão menos ao pediatra, tem menor risco de desenvolver obesidade, maior facilidade de sociabilidade, são mais espertas e permite um desenvolvimento emocional mais sólido. A amamentação se torna uma importante atividade para auxiliar a criança a adquirir sua independência. E essa aquisição ocorre de maneira natural quando ocorre o desmame natural, pois não se força a criança a pular estágios que ela ainda não alcançou de seu desenvolvimento. Desconheço artigos científicos que tragam pontos negativos da amamentação prolongada. O que os profissionais de saúde muitas vezes indicam, um desmame a um ano de vida na verdade está relacionado a fatores culturais e não às evidências científicas e orientações da OMS e MS.


O homem é o único mamífero em que o desmame (aqui definido como a cessação do aleitamento materno) não é primariamente determinado por fatores genéticos e instinto, sendo fortemente influenciado por fatores socioculturais. “ Elsa Regina Justo Giugliani, SBP
Um estudo de 1993¹ relata que a idade média encontrada para o desmame natural foi de 3 a 4 anos. O desmame precoce tem sido associado a uma necessidade emergencial de maior independência das crianças; sem a preocupação se ela está preparada para essa quebra. Ossos do ofício do modo de vida ocidental pós industrial onde os bebês aparentemente tem que sobreviver, porque a “vida não é fácil”, “ter independência é muito importante”. Enfim, com a industrialização da vida e o distanciamento do nosso eu, a relação mãe e bebê acaba sendo desconexa, mecânica, o que prejudica as interpretações dos símbolos que o bebê mostra. Ou seja, não há uma comunicação eficaz entre mãe e o bebê. Mera coincidência ou um reflexo da maneira que a sociedade vive?
Hoje, em muitas culturas “modernas”, a amamentação prolongada (cujo conceito varia de acordo com a “convenção” da época e do local) freqüentemente é vista como um distúrbio inter-relacional entre mãe e bebê. Perdeu-se a noção de que o desmame não é um evento e sim um processo, que faz parte da evolução da mulher como mãe e do desenvolvimento da criança, assim como sentar, andar, correr, falar. Nesta lógica, assim como nenhuma criança começa a andar antes de estar pronta, nenhuma criança deveria ser desmamada antes de atingir a maturidade para tal. Em harmonia com esta linha de pensamento, Dr. William Sears, um antigo pediatra, recomendava “Não limite a duração da amamentação a um período pré-determinado. Siga os sinais do bebê. A vida é uma série de desmames, do útero, do seio, de casa para a escola, da escola para o trabalho. Quando uma criança é forçada a entrar em um estágio antes de estar pronta, corre o risco de afetar o seu desenvolvimento emocional”. Essas palavras sábias podem ter pouco respaldo em sociedades individualistas, que tendem a acelerar o processo de independização do ser humano, substituindo o seio por métodos de auto-consolo como chupetas, paninhos, mantinhas, ursinhos, etc. […] Já se avançou muito na valorização do aleitamento materno nos últimos tempos. A recomendação da duração da amamentação passou de 10 meses na década de 30 para dois anos ou mais nos dias de hoje. Atualmente, fala-se em desmame natural como a forma ideal de desmame, sem especificar uma idade mínima ou máxima para que esse processo ocorra. Apesar desse avanço ainda estamos longe de encararmos o desmame como um marco do desenvolvimento da criança. Para chegarmos a este estágio, faz-se necessário entender e enfrentar as circunstâncias que, segundo Souza e Almeida, “ultrapassam a natureza e desafiam a cultura e a sociedade”. Elsa Regina Justo Giugliani, SBP
Há também uma sexualização do ato de amamentar. Culturalmente crianças que andam e que são amamentadas são vistas com certa desconfiança. Para algumas pessoas há até mesmo a desconfiança em relação à saciedade e ao teor nutritivo que o leite materno pode ter. O leite da vaca seria melhor? Não. O leite da vaca é do bezerro. E não deveria ser de ninguém mais. Pela vaca, pelo bezerro e pela saúde do nosso corpo, que consome uma bomba e sobrecarrega o organismo desnecessariamente, desequilibrando-o e tornando-o mais propenso ao desenvolvimento de doenças. (Saiba mais aqui)
“Através da amamentação, a mãe recebe uma resposta da boca do seu filho, das mãos dele, do corpo e dos olhos dele. Isso dá-lhe informação sobre como ele se sente e sobre o que ele está a fazer. Quase todas as mães que amamentam até mais tarde, afirmam que esta intimidade com o bebê é o elemento mais satisfatório da amamentação. Quando a mãe está a ter este tipo de prazer, ele transmite-se, por sua vez, ao seu filho. Os sorrisos dela, as carícias e o relaxamento do seu corpo, tudo isso ajuda a tornar a experiência da amamentação mais agradável para o seu filho, também. O contato da pele entre mãe e filho, estimula a hormona prolactina que pode aumentar os sentimentos maternais. Estes sentimentos maternais e de proteção em relação ao filho defende a criança de possíveis maus tratos e abandono por parte da mãe. Em países onde se tem melhorado e aumentado a amamentação devido às mudanças nas práticas hospitalares para que não haja separação entre a mãe e o bebé, encontrou-se uma redução no abandono de bebés por parte das mães.”¹
E quando amamentar não é mais prazeroso para a mãe? Quado ela está desgastada por diversos fatores de seu cotidiano, cansada emocionalmente, o que fazer? Antes de orientar a como fazer um desmame artificial de maneira gradual e mais respeitosa ao tempo do bebê, é bom nos perguntarmos as motivações de realizar o desmame, tomar consciência das consequências para mãe e bebê e para que a mãe tome uma decisão. Eu mesma, em alguns dias exaustivos ou em situações emocionalmente ruins, não sinto o prazer e a disposição em amamentar que sinto em outras oportunidades. Ajuda conversar com alguém, sair pra caminhar, ir a praia... 
“O pedido de ajuda para desmamar deve ser ouvido e acolhido com um pouco mais de sensibilidade por parte de quem se propõe a ajudar, visto que, na maioria das vezes, quando a mulher consegue verbalizar verdadeiramente o que a incomoda ou deseja, e uma vez que isso é realmente sanado, a amamentação pode continuar seguindo tranquilamente um caminho de alegria e sintonia entre mãe e filho!  Geralmente o pedido para desmamar é apenas um SINTOMA que demonstra outros problemas, outros desejos e necessidades daquela mãe, que são, na verdade, as coisas que precisam de cuidado e atenção. E passar por isso, para a mulher, pode ser uma ótima oportunidade para que ela aprenda a enxergar, verbalizar e legitimar seus verdadeiros sentimentos, desejos e necessidades! “ Luzinete R. C. Carvalho (psicanalista) (GVA)
Existem alguns tipos de desmame: o abrupto, o noturno, o gradual e o natural. O desmame abrupto é aquele feito sem levar em consideração o tempo da criança, de maneira abrupta. O desmame noturno é o que caracteriza um desmame guiado pelo bebê somente pelo período da noite/madrugada. O desmame gradual é também guiado pelo bebê e feito de maneira lenta. O desmame natural é o desmame ideal, quando a criança deixa de mamar sozinha. Não existe receita de bolo para fazer o desmame. Mas ele deve ser feito considerando a idade do bebê. No mínimo do mínimo um ano, mas mesmo assim as perdas são muito grandes. A partir dos dois anos pode-se considerar um mínimo com menos prejuízos. Cada binômio é um mundo diferente, carregado de emoções, vivências, rotinas e pessoas diferentes. O que temos que ter em mente, após conhecer e pesar na balança os motivos e os prejuízos para o desmame é que ele deve ser feito de maneira gradual, carinhosa e respeitosa ao tempo do bebê; por acordo da mãe e do bebê. Existem três aspectos que devem ser observados se existem sem a amamentação para considerar o desmame, que são sinais da maturidade e autonomia da criança: nutrição, afeto e comunicação.

Os estudos científicos mostram que o desmame não melhora o sono, nem o apetite e não torna o bebê um ser independente. Fique atenta a profissionais de saúde que indicam desmame por prescrição de medicamento. Muitos deles tem total desconhecimento que a maioria dos fármacos são compatíveis com a amamentação. Confira a lista de medicamentos que podem ser utilizados na amamentação de fontes confiáveis aqui e aqui. O desmame natural ocorre quando o bebê está pronto, é um estágio de seu desenvolvimento que foi atingido e que ele suspende por ter suprido o que lhe faltava para seguir adiante.

Jamais deve-se utilizar artifícios para que a criança rejeite o peito.
"O mais cruel e nocivo dos desmames abruptos é aquele que faz com que a criança prove no seio da mãe algo ácido, azedo ou amargo, especialmente quando isso é associado a uma visão terrível (seios pintados, com band-aid etc) do seio, objeto que até então só trazia prazer e que aparece repentinamente como algo assustador. […] Esses sentimentos e impressões ficam inscritos no córtex para o resto da vida, a confusão entre prazer e desprazer ficará gravada e um dos sintomas mais comuns será a inabilidade da pessoa para acreditar que merece prazer e que ele pode ser algo perene, confiável. Perdurará a impressão de que o prazer pode a qualquer momento virar uma ameaça. Nos piores casos a pessoa não consegue buscar o prazer, já caminha diretamente para a punição.Cláudia Rodrigues (retirado do Grupo Virtual de amamentação)
A amamentação é o primeiro vínculo entre mãe e bebê e é preciso compreender isso como a solidificação de uma relação de uma vida inteira. O que ocorre nessa fase fica guardado e pode refletir na infância e vida adulta em sentimento ruins sem causa aparentemente explicável. Por isso é preciso mais sensibilidade para enxergar esse momento e procurar ter respeito, amor e cuidado. O desmame gradual permite uma adaptação física e emocional da mãe e do bebê. Na mãe o desmame abrupto está relacionado à depressão, ingurgitamento mamário, mastite. O desmame gradual respeita a maneira que o bebê lida com a perda do contato íntimo da amamentação ao ser substituída por outros contatos.

Existem alguns métodos para o desmame noturno, como o da Elizabeth Pantley, Dr. Jay Gordon (ambos em inglês). Em português traduzido o da Elizabeth Pantley tem na De Peito Aberto Esses métodos são guiados pelo bebê e não concordo com nenhum deles plenamente. Talvez eles possam servir de orientação geral e não como um passo a passo. É preciso estar atento aos sinais que o bebê dá, considerar modificar outros aspectos e ir percebendo, escutando seu coração para ver o que funciona melhor para vocês.

Deixo abaixo como sugestão essas leituras para que as mães façam decisões conscientes.

DIGA NÃO AO DESMAME ABRUPTO.

Fontes:
-A revolução das mães: o desafio de nutrir nossos filhos - Laura gutman


domingo, 16 de março de 2014

O menino que queria pintar as unhas

Azul com purpurina prata. Assim estavam pintadas as unhas da tia preferida dele. Ele achou o máximo, pegou a mão, o dedo, a unha, olhou de perto. Mexeu pra um lado e mexeu pro outro. Viu a mudança de luminosidade no brilho quando se movia. Fazia isso levemente, sorrindo e falando. Pegou o esmalte, pediu pra pintar também. O pai pintou uma unha. Ele foi mostrar. Mostrou pro cachorro, pro gato, pra mãe, pra avó. Voltou, pediu pra pintar mais. O pai pintou a outra unha. De rosa. Ele achou o máximo. Mostrou pra todo mundo! Sorrindo! Quanta alegria! Então uma tia disse algo que repreendia pintar a unha de um menino. Ninguém deu muita bola. Eu fiquei refletindo. Que coisa esquisita. Brincadeira legal daquela, todo mundo se divertindo! Claro que entendi o preconceito de gênero, essa coisa incrustada na nossa sociedade: o machismo. Que pena danada, pensou, quando vejo que a grande maioria de nós humanos ainda vive como se ter pênis ou vagina que definisse se somos homens ou mulheres. Se gostamos de homens ou mulheres. Isso porque passamos a imensa maior parte do tempo cobrindo nossos órgãos sexuais. Já pensou? Se fosse só isso, na verdade só saberíamos se todo mundo andasse nu. Mas não andamos. Cauã adora colocar minhas tiaras. E ele usa. Eu uso. O pai já usou. Ele adora brincar de bola. Eu brinco, o pai também. E não é isso nem aquilo que vai fazer dele menino ou menina. Não estamos preocupados com isso. Ainda não consegui me desvencilhar de outras concepções incrustadas dessa porcaria de concepção de gênero, como a escolha de roupas. Mas vamos caminhando. Por enquanto ele parece confortável usando as roupas que usa. Mas se um dia ele não sentir, procurarei auxiliá-lo a encontrar as que lhe parecem mais confortáveis. Esperamos propiciar pra ele uma plenitude de infância com aprendizados de todas as brincadeiras legais e divertidas. No fim o que importa é que ele esteja feliz e se sinta amado. E nisso a gente se empenha! 



terça-feira, 4 de março de 2014

Veganismo e humanização do parto: vivendo de maneira consciente

Um colega me mostrou um texto muito bom da maravilhosa Laura Gutman, que me instigou a escrever esse texto. Já faz algum tempo que consigo perceber uma relação entre os movimentos do veganismo, da humanização do parto e do feminismo. Os três lutam pela libertação e os três buscam através da informação um mundo mais igualitário e mais consciente. No veganismo acontece a alimentação consciente. Foi o que aconteceu comigo. Fui me informando e cada vez mais que sabia o que acontecia aos animais e como funcionava a indústria alimentícia de produção em massa e naturalmente passei a mudar minha alimentação e meu modo de vida. Tomei consciência e não tinha como ter um modo de vida incoerente com o que passei a saber. Na humanização do parto acontece o parto consciente. Luta-se pelo respeito ao protagonismo feminino, pela prática baseada em evidências científicas e pelos direitos reprodutivos femininos. O que já dá o link pro feminismo. No feminismo acontece a igualdade de ser Humano por ser Humano, não pelo que você carrega (ou não) entre as pernas. Os três temas abraçam minorias. Deixarei para um próximo texto o aprofundamento na questão do feminismo com os dois outros movimentos. Hoje quero falar especificamente sobre viver de maneira ativa e consciente.

Nesse final de semana de carnaval encontrei uma conhecida, que não sabia que estava grávida. Parabenizei e fomos conversando até que chegou no tópico parto. Ela disse algo que deu a entender que parto normal era algo muito assustador.
Perguntei: você já sabe como quer que ele venha ao mundo?
Ela disse: acho que não quero parto normal.
Eu: Por quê?
Ela: Porque é muito sofrimento.
Eu: Será que é mesmo? Tem mulheres que tem orgasmo durante o parto! Imagina aí se não é possível ter um parto com prazer!
Ela, meio com vergonha, disse: Eu tenho muito medo.
A mãe então se mete no meio da conversa e diz: Ela é muito medrosa! Até parece que vai encarar um parto normal.
Aí eu disse: Você tem medo de que? Olha, com uma equipe bacana, você pode buscar lidar com esse sentimento e parir de maneira fortificadora.
A conversa seguiu e a gestante pegou meu telefone para procurar um grupo de apoio na cidade em que mora. Mas bem, o que quero focar aqui é que já tive esse tipo de conversa inúmeras vezes e em todas elas o que me deixa triste é o fato dessas mulheres estarem tão desconectadas delas mesmas. O parto pode ser um ritual transformador, com o encontro e o enfrentamento de questões emocionais que nos tornarão mais fortes. A maneira como lidamos com o nascimento diz muito da maneira que lidamos com a vida. Distante, desconectada, passiva. A vida gira no automático, o tempo passa passa passa e nada se cria, nada se faz para mudar o que nos incomoda. Poxa! Que desperdício! Gosto de pensar que é uma questão de tempo. Que uma hora tomar as rédeas de nossas vidas e assumir posicionamentos coerentes em todos os aspectos dela não vai ser uma possibilidade e sim uma necessidade para transformar o planeta. Se esconder no medo, na insegurança, na zona de conforto não vai ser suficiente para um número cada vez maior de pessoas. Quando soube o que se encontrava nos alimentos que ingeria, se fez necessário mudar todo um estilo de vida. Não dá pra passar de olhos fechados diante de tanta crueldade, de tanta violência, de tanta falta de amor. Com a natureza, com os animais, com as mulheres, homens e com tudo. E assim é também com o nascimento. Não dá pra continuar recebendo seres novos com tamanha brutalidade que é para o bebê e para a mãe a cirurgia cesariana (salvo os casos com indicação real) ou um parto vaginal carregado de violência obstétrica. Não dá pra tantas mulheres continuarem perdendo o contato com si mesmas e se enfraquecendo alimentando uma forma de viver, gestar e nascer que não é coerente com a nossa natureza, com o nosso ser - a plenitude da existência.
Eu recebi Cauã na minha vida de uma maneira que nunca pensei, e passei por situações que eu não desejo pra ninguém durante o nascimento dele. Mas dessas situações ruins, eu procuro tirar algo bom, e isso tem me fortalecido. Ele chegou trazendo mais emergência ainda de viver de maneira consciente, ativa e coerente. Ele chegou trazendo mais força pra mim e pra nossa família de uma maneira arrebatadora. E às vezes não é fácil, dá um trabalhão... a luta, a vida, a birra... mas no fim sempre vale a pena.
E por isso as lutas se fazem tão essenciais nessa vida. Não dá pra passar por esse planeta sem ter feito nada pra tornar aqui um lugar melhor para todos do presente e do futuro.
Isso me move. O que move você?


Dá uma lida também:
Galactolatria – Mau deleite
Política Sexual da carne
O Renascimento do Parto
Cientificação do amor
O Camponês e a parteira

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

A violência nossa de cada dia

Situação 1) O pai pergunta pro filho se ele quer tomar um murro na boca em frente a uma atendente em uma padaria

Situação 2) Uma médica obstetra manda a parturiente em trabalho de parto pegar as coisas e ir embora ao ser questionada sobre os procedimentos que iriam fazer e diz que quem sabe mais é ela, que é médica

Situação 3) Uma pessoa discute com a outra, xingando e dando dedo pela janela do carro, porque a outra entrou na faixa sem dar a seta 

Situação 4) Uma mãe dirige palavras de maneira hostil ao filho, todos os dias. 


Essas são algumas situações vivenciadas por mim nessas duas últimas semanas. Poucas coisas ruins me deixam realmente perplexas como a violência deixa. Já faz algum tempo que eu estava bem triste por testemunhar tantas coisas em tão pouco tempo. Fiquei pensando se elas estiveram sempre ali e eu não as via. Fico bem incomodada quando testemunho violências assim e depois conversas de como a sociedade está violenta e mimimi. Desde quando nos desconectamos do todo? Não fazemos parte desse lugar violento não? E o que temos feito para melhorar a situação? O fato de algumas violências serem tão legitimadas deixa o quadro um pouco mais complexo. Algumas violências simplesmente não são vistas como violência. E não é só por uma pessoa, mas por várias. Veja só, imagina que você acordou de mau humor e se comunica de maneira grosseira com as pessoas. Isso é uma violência. Não só com quem escuta, mas com quem fala também. Se a gente pensar energicamente, o fato de xingarmos alguém no trânsito, por exemplo, joga para o universo uma energia densa e ruim, que provavelmente encontrará força em outras energias da mesma afinidade e que provavelmente resultará em um acontecimento ruim. Quando você grita comigo, a energia não é legal. Quando você me bate, a energia não é legal.     

Depois de ser mãe eu passei a entender melhor o porquê de educar sem violência ser tão fundamental. Faz todo sentido. Eu nunca gostei quando gritavam ou me batiam. Me calava porque era o jeito. Obedecia porque era o jeito. Muitas vezes o que consideravam respeito, era medo. Realmente parece que quando estamos cansados, estressados e desconectados de nós mesmos e do todo, o primeiro ímpeto para uma ação indesejada de nosso filho (ou de quem quer que seja) é o de usar a violência, seja gritando, ameaçando, ignorando, batendo. É um lado feio, mas é um lado que faz parte da gente. A jornada da vida não é fácil, e depois que somos pais e decidimos por uma pa/maternidade ativas, conhecer e refletir sobre os processos do desenvolvimento infantil e sobre o nosso próprio crescimento, produz situações de crescimento coletivo muito mais prazerosas. Viver de maneira consciente e coerente é essencial para mudar o mundo para melhor. Se estamos sendo agressivos com nosso filhos, é hora de olhar para dentro, pois aquela "danação" pode não ter a dimensão que damos a ela ou mesmo pode ser um sintoma de que algo na comunicação não vai bem. Por que essa situação me estressa? O que ele quer me dizer com isso? É preciso ir além. Laura Gutman, diz que a maternidade é o encontro com a própria sombra. Ao invés de fugir dela, vamos abraçá-la e procurar compreendê-la para que não depositemos pedras nas costas de nossos filhos que na verdade são nossas. Uma infância sem violência gerará seres mais comprometidos com o amor e a paz no nosso planeta. Assim não faz mais sentido? Se quer amor, plante amor. Em todos os lugares com todas as pessoas. É um exercício diário! 
Só poderia encerrar com um pedido:


para ler:
Comunicação não violenta - Marshall Rosemberg